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Matando a sede de beber, a sede da crônica

Por Cassiano Russo

Corpos queimados pelo sol escaldante se arrastam pelo asfalto quente da cidade suja. Ratos, mosquitos e escorpiões infestam os terrenos dos bairros mais distantes. A população periférica é encaixotada em ônibus, que mais se parecem com latas de sardinha. Mais um dia de trabalho extenuante no centro intransitável da cidade. Essa é uma parcela dos meus concidadãos. A maioria, talvez. Os demais, que conseguiram aumentar seu pé de meia, circulam em carros com ar condicionado. O calor sufoca a todos. Não há muito o que fazer na cidade, senão a mesma ritualística do interior: bares com música sertaneja, bandas covers de rock, juventude bêbada e futebol pela televisão para os esperançosos.

Confesso que nunca simpatizei com esse clima de interior, porém, prefiro esse ao da cidade grande.

Assim, sigo meus dias alheio aos acontecimentos mais banais da cidade, tão banais que cabem em uma crônica despretensiosa como esta, e dos quais tomo conhecimento pelo rádio e a internet, por não participar de nada disso, por ficar em casa a rascunhar minhas observações sobre o lugar onde moro mas não frequento, ou não costumo frequentar, pois está do portão para fora, lá na rua, e o meu mundo é apenas minha casa.

Essa é uma solidão salutar, na qual busco meu caminho de escritor, com plena consciência de que poucos lerão estas minhas linhas, porque não sou reconhecido, porque prefiro o anonimato deste texto, com meu nome em cima e sem foto minha a fazer pose de homem de letras esclarecido, coisa que não sou, pois carrego uma série de dúvidas e incertezas em minha alma: meu cabedal é vazio como a última garrafa de refrigerante, consumida ainda ontem quando estava contente.

Vivo solitário na cidade, na cidade grande do interior, que é pequena para mim, pois meus sonhos são todos caseiros e cabem num cômodo. Não tenho a pretensão de ser famoso com a escrita, somente bebo da minha água, porque, assim como todos, também tenho que matar a minha sede. E escrever é como beber água fresca numa madrugada quente. E em meio à ruína da prosperidade do passado, apenas contemplo esse espetáculo tragicômico, com baforadas de cigarro alemão e café. Sou o cronista de um lugar perdido no futuro de antanho. Um observador cético diante da queda do tempo.

Foto: Pexels

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