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Crônica da Solidão de Segunda-Feira

Por Cassiano Russo, professor de filosofia

Mais uma madrugada. O dia começou. No silêncio das cinco horas da manhã, tenho a sensação de que nada é óbvio neste mundo, por mais que tudo pareça tão banal para alguns, o que não é o meu caso, porque algumas faíscas de realidade me incomodam nas entrelinhas desta semana que se inicia. O universo continua a funcionar, tal qual um relógio, ininterrupto, controlado por algum relojoeiro misterioso. Os dias se repetem até a hora de nossas mortes.

Nesse intervalo, realizamos nossas atividades cotidianas com a ilusão de que somos eternos, como se a consciência da finitude não passasse de uma vaga noção abstrata que somente certos homens possuíssem – não há obviedade na vida, esse exercício de resistência contra o tempo. Ele, o tempo, está aí passando, inexorável, e somente os parvos não veem que suas horas escorrem entre seus dedos. E que vida é esta de total ausência de silêncio e reflexão que a maioria leva?

Nesse ponto, a filosofia é para poucos, para os nascidos antes do nascimento. É preciso ser leitor de uma crônica escrita por detrás do mundo para que se perceba toda a complexidade do universo, como alguém que assiste a um grande filme que só é exibido em sua cabeça. Não, não é fácil ser espectador do inevitável! Isso dói, machuca, estilhaça! (Talvez a lucidez do espírito tenha seu preço). Assim, na ausência do olhar, muitos se vendem às conveniências mais ridículas de nossa espécie…

E cá estou eu, em frente à máquina de escrever, a pensar nessas coisas quando o sol começa a raiar, timidamente nesta primavera chuvosa, com mais um naco de esperança a iluminar minhas incertezas tão certas! Começo esta segunda-feira em busca de meu bocado de vida, espero realmente viver e ser de alguma maneira alguém para além daquele que observa. Sei que é cansativa esta minha sina de escritor, embora também saiba que é necessária, como se fosse uma questão de sobrevivência ao mutismo da cidade que sobrevive na minha escrita. Essa é mais uma manhã: matando a sede de existir na escritura/solidão do centro, que é o meu centro, um centro que só existe em mim, quando observo o centro do calçadão ruborizado com seu olhar azul e tímido.

Centro da cidade interior, inglesa.

Centro de Londrina.

Foto: Arquivo/ Londrina Convention Bureau

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