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Constatação

Por Cassiano Russo

As palavras vêm como o vento que nos toca. Nunca sabemos sua direção e como reagiremos a elas. Às vezes são apenas brisas, palavras mansas; outras vezes, elas vêm como furacões capazes de nos arrancar do chão. Há também aquelas palavras murmuradas, como lamentações, ou ladainhas.

Fato é que somos tocados por palavras, mesmo no silêncio. Quantas vezes já não nos deparamos na vida com a eloquência dos mortos em enterros e velórios? O silêncio é uma grande palavra nessas horas, a melhor a ser exercida.

E alguma coisa acontece nesses instantes que nos enaltece, que nos leva para campos não bem explorados de nossas almas, quando falamos de forma grandiosa sobre aqueles que se foram.

 Nessas horas, somos grandes oradores de algum processo misterioso que ocorre em nós, como se algo de divino brilhasse em nosso ser e, assim, nos encontrássemos nas alturas do Olimpo, ao lado de Zeus.

Imagino que cada um de nós possua essa centelha divina, pois o homem, por mais ordinário que seja, tem os seus momentos de palavras grandiosas. E, nesses momentos, qualquer um é tomado pelo poder do Verbo.

Mas o que nos tortura mesmo, o que nos agride, é quando não conseguimos dizer algo. E então ficamos perdidos como cegos em meio a uma floresta, e nossa própria razão é frouxa diante da escuridão.

 E já não somos homens dotados de linguagem, por sermos obnubilados por um silêncio profundo, primitivo, tal qual animal selvagem em ambiente hostil.

Daí a constatação de nosso vazio, porque não sabemos dar conta de nossa própria animalidade. Somente o silêncio de fera coagida, com medo, é o que nos resta.

E todos já devem ter passado por situação semelhante, em que se é nada, em que se sente o nada, até o esvaziamento do espírito. Isso é niilismo, mas não em sua manifestação conceitual, e sim como puro instinto da besta que há dentro de cada um de nós.

Porém ainda temos que viver – e o nada absoluto não é o melhor estado para quem está vivo, mas para quem morre ainda em vida.

E, contra o desespero do nada, sempre encontraremos alguma verdade nas palavras, como suma razão contra os delírios de nossas misérias. É quando as trevas de nossas profundezas dão lugar à luz, e somos embalados pelo espírito dos deuses, que nos devolve à superfície contra o desconhecido.

Foto: Pexels

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