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A menina e o mar

Apesar de ser uma caiçara nata – nasci em Caraguatatuba, litoral paulista. – só fui conhecer o mar de fato e não só em fotos, aos 15 anos. O mar e meu pai. Foi com essa idade que nos reaproximamos da família Santana, distanciada com a separação dos meus pais, e lá fui eu conhecer uma infinidade de tios, tias, primos e primas. Foi como nascer de novo, dessa vez completa.

O pai e a avó – Foto: Acervo pessoal

Meus pais se separaram quando eu não tinha nem dois anos. A mãe não falava, mas o cara era o maior galinha. Costurava pra fora mesmo. Só que desta vez ele costurou dentro da família. Engravidou a prima crente.

Crescemos, eu e minha irmã, achando que éramos tia e sobrinha, já que nossos avós a criaram. Hoje nos tratamos do jeito correto, ou seja, como manas que somos. E temos praticamente a mesma idade. Seu Itamar, alto, moreno, de olhos verdes e lábia fácil, passou o rodo enquanto foi vivo. Devo (e sei que) ter mais uns irmãos espalhados por aí.

Até essa idade, tinha visto meu pai apenas em fotos e em uma única visita que ele fez de surpresa. Eu era muito pequena e só lembro daquele homem batendo palmas no portão e a desordem que aquela visita causou.

Quando adolesci, comecei a pressionar que queria conhecer meus avós paternos. Do lado da mãe só conheci minha avó Sophia, pois quando nasci meu avô Felicio, já havia falecido.

Vários telefonemas daqui e de lá e lá fui eu num verão de 1975/76, para Ubatuba, cidade em que parte da família reside até hoje.

Já de dentro do ônibus, vim pelo caminho vendo uma das paisagens mais lindas desse país. Ao todo, Ubatuba concentra mais de 100 praias, a maior parte delas sem poluição, ao longo de 80 quilômetros de litoral.

Foto: Acervo pessoal

Meus avós moravam na avenida principal da cidade, muito próximo da rodoviária e da avenida beira mar. Então, o primeiro contato direto com o mar foi com as praias centrais, que ao todo, somam oito.

Meu amor eterno sempre será a praia do Tenório, pequena, aconchegante e na qual chegávamos de carona. Ia de manhã e só voltava ao final do dia.

Torrada de sol e morta de fome. Pronta para encarar as comidas inesquecíveis de minha avó Filinha, como o angu de fubá com torresmo servido no café da manhã e o chuchu com camarão do almoço. Eu, a própria Olívia Palito, comia feito uma condenada. Para perder tudo no dia seguinte na praia.

Foto: Acervo pessoal

Lembro direitinho de ter experimentado a água para conferir se era salgada mesmo e de perder o olhar naquela imensidão azul. E das várias amizades cultivadas ao longo dos anos seguintes. Torcia para as férias de verão chegarem logo e eu poder me reunir com aquela parte da família. Foi uma adolescência inteira temperada a sal e sol. Eram dias e mais dias sem preocupação.

Com a entrada na faculdade, porém, minhas idas para lá foram se espaçando. Nesse meio tempo meus avós morreram, as primas casaram, eu me formei e me casei. Perdemos um pouco o contato. Mas dona internet tratou de nos reunir de novo.

Há um tempo atrás fui para Ubatuba. E apesar do sentimento e lembranças serem os mesmos, já não é igual.

A adolescência é pródiga em nos apresentar o mundo como se estivéssemos em um parque de diversões. Parquinho que, aliás, frequentávamos lá no centrinho. Minhas primas já são avós, meu pai e avós já partiram.

E com eles levaram as lembranças daquelas tardes de verão adolescentes, quando tudo o que a gente queria era ser feliz debaixo do sol. Não é incrível como as lágrimas têm gosto de mar?

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Acervo pessoal

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