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Londres, fria Londres

Raquel Santana (*)

Já fui uma quase delinquente quando frequentei a Universidade Estadual de Londrina – UEL, nos idos de 1982. Explico: quando o termo “pichar” nem tinha sido incluso no dicionário, fiz minha declaração de amor à cidade, em tinta cor de rosa, no muro do cemitério São Pedro. Um ato de rebeldia para a época.

Foi numa madrugada de neblina. Não lembro quem dos oito indivíduos que dividiam a nossa república, apareceu com uma lata de Suvinil em casa. Há dias, uma frase vinha martelando a minha cabeça e tinha lido algumas reportagens sobre uma “nova onda entre os jovens, uma forma de expressão, a pichação“. Eu era jovem. Ali estava minha chance. Foi em outubro daquele ano que, a bordo de um Fiat 147, que me senti uma verdadeira outsider na cidade.

Como sempre, fomos a turma toda socada dentro do carro. Nunca era menos de cinco, a lotação máxima do veículo. Só quem já andou nesse modelo de automóvel sabe do que estou falando. Carro parado, motor ligado, desço correndo enquanto alguém, na esquina da JK com a Rio de Janeiro, confere se nenhum camburão descia ou subia a avenida. Coração a mil, tinta e pincel nas mãos, fiz minha declaração de amor à cidade.

Numa letra feminina e cheia de floreios, escrevi:

“Londres, fria Londres

Que quando se faz pequena

ou quase menina,

é Londrina”

Por meses, a bordo do coletivo que vinha da UEL para o centro, degustei o sabor de ser uma criminosa anônima. Adorava as letras rosas no fundo verde, a cor do muro na época. Era quase como assistir, no banco do coletivo, uma festa em verde e rosa. E me deleitava ao ouvir alguém, em voz alta dentro do coletivo, ler a minha pequena/grande confissão.

O meu amor por Londrina nasceu quando pisei pela primeira vez na rodoviária, vim do interior de São Paulo, para fazer o vestibular. Foi o primeiro lugar fora de casa que me senti em casa. Morei em pensionato e depois na “Casa Verde “, esta um capítulo à parte para ser contato em outro dia.

Passei por lá dias desses, depois de anos sem vir à cidade, e agora está tudo diferente. A casa, na esquina da Paranaguá com a rua Tupi, virou uma loja de luxo. E o muro do cemitério está todo grafitado, aposto que tudo feito à luz do dia. Com autorização, claro. Londrina já não é mais tão pequena.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas uma eterna apaixonada por Londrina

Foto: print do vídeo da Alma Londrina Rádio Web

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2 Comentários

  1. Que lindo! Queria passar de ônibus e ver essa declaração de amor nessa época. Um beijão Raquel querida.

    1. Obrigada, Maeve. Vc faz parte dessa história. Bjs

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