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Esquinas em 3 movimentos e meio

Por Ana Paula Barcellos

Avenida Rio de Janeiro, minha lua em Câncer beijou a lua em Câncer e eu ia de mãos dadas com minha filha, que sorria sem parar e pulava as linhas “proibidas” da calçada. A gente ia andando pelas ruas que eu pisei de criança, pulando outras riscas, passando em frente à galeria onde assisti ao meu primeiro filme. Mesmo cabelo, mesma franjinha, mesma alegria. Também de mãos dadas, também aconchegada na minha mãe, aproveitando as paradas perto do sinaleiro pra encostar a cabeça na barriga dela. Quando meus dias preferidos já eram os nublados, dias bons pra escolher os doces que eu devorava durante nossos passeios.

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No ensino médio, a gente tava sempre esbaforida. Sempre naquela urgência adolescente. Professora faltou, dava pra subir aula? Saía correndo e chamava a do próximo horário. A gente chamava e voltava correndo, andava rápido. E estranhava que a professora ainda tava lá atrás, no corredor, olha o relógio!

Numa dessas, a Alfa me olhou com aquele olhar de “Tsc, Tsc” e de quem vai dizer algo que parece trivial, mas na verdade é importante. “Minha querida, eu não corro. Sabe quando os carros estão passando e as pessoas saem correndo, desesperadas, pelo meio da rua? Pois é, eu não corro. Espero os carros pararem, bonitinhos, e só então eu passo. É assim”.

Por alguma razão me lembrei disso hoje. Com os cruzamentos terríveis da Paranaguá, eu esbaforida esses dias todos, aproveitando as brechas dos carros. Só sei que me lembrei disso e parei. Respirei, espinha ereta. Os carros que parem. Agora eu não corro mais.

Nas esquinas, agora os carros que parem. Eu não corro mais.
Foto: Wilson Grandi

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Fui à papelaria buscar umas plotagens e me posicionei na fila do balcão. Em frente a mim, um senhor de seus 80 anos explicava detalhadamente como o rapaz deveria fazer as cópias dos jornais que ele levou: folhas e mais folhas de um jornal que parecia um tanto antigo, páginas cheias de poesias em japonês.

O rapaz da papelaria, atento, mostrava os ideogramas que não caberiam nas cópias para saber se fazia diferença ou não, queria saber quais podia omitir. Eram mais de 30 cópias, todas com instruções minuciosas. A fila aumentou rapidamente, chegou na porta. Todos aguardavam pacientemente a poesia ficar pronta, copiada como devia ser.

Nenhum resmungo, nenhum suspiro, nenhum olhar torto. 10h28 e tudo parou: o currículo que esperava ser enviado, os boletos que seriam impressos, os convites daquele evento. Tudo esperou a poesia.

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E subindo as 4 rampas perto da Mato Grosso, tão vermelhas quanto a justiça de Xangô, eu pedi. pedi com força. “Cuidado com o que você deseja, pois pode se realizar”.

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Ana Paula Barcellos

Meu pai e minha mãe nunca tiveram problemas com idas ao cemitério e a velórios, e sempre levaram a gente junto, desde pequena. Sempre entenderam que a morte é parte fundamental da vida, no futuro

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab

Foto principal:

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

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