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Meu noivo quer que eu pare de trabalhar depois do casamento. O que faço?

Por Telma Elorza

“Trabalho desde os 15 anos e me acostumei a pagar minhas coisas desde então. Mas meu noivo, que tem um salário muito bom, vem insistindo para que, depois que casarmos, eu pare de trabalhar e cuide só da casa e dos filhos que queremos ter. Amo meu noivo, mas não sei se conseguirei ser ‘do lar’. O problema é que as famílias, minha e dele, fazem pressão para que concorde e largue meu emprego. O que faço?”

Nossa, existe isso ainda? Homem pressionando a mulher para ser dependente financeiramente? Que coisa mais antiga.

Olha, eu acho – e isso é uma coisa minha, outras pessoas podem discordar – que trabalhar é uma necessidade. Nunca me vi apenas em casa, cuidando do lar, do marido e filhos. Sempre quis ser jornalista e corri atrás do meu sonho. Trabalho na área há 36 anos e pretendo continuar enquanto estiver com minhas faculdades mentais intactas. Sou uma péssima dona de casa. Nunca gostei e nunca vou gostar de cuidar de casa. Mas, independentemente da minha opinião, eu acredito na liberdade de escolha.

Se você quer ser apenas dona de casa, seja. Mas se você gosta de trabalhar, lhe faz bem ter sua independência financeira, continue a ser uma profissional. O ponto aqui é: você deve levar em conta a sua vontade acima de todas as outras opiniões. Não se anule para fazer a vontade dos outros, mesmo que você ame muito seu noivo.

E vou lhe dar duas razões para isso.

A primeira é: se você deixar de trabalhar porque seu noivo quer, você se sentirá frustrada pelo resto da sua vida de casada. Se não é sua vocação ser ‘do lar’, se não tem o desejo de ficar em casa cuidando das coisas, você vai ser uma péssima dona de casa e terá inveja das amigas independentes, que batalham e vão atrás dos seus sonhos. Você sentirá algo parecido com inadequação. Eu sei, já vi amigas que deixaram de trabalhar ao casar e hoje lamentam. Uma delas me falou uma vez que se sentia vazia – principalmente depois que os filhos cresceram e saíram de casa – e que, se pudesse voltar no tempo, nunca teria parado de trabalhar.

A segunda razão é que, com o marido provedor, você vai ser uma eterna dependente. Vai ter que pedir dinheiro para tudo, fazer uma unha, cortar o cabelo, comprar uma “brusinha”. Mesmo os homens mais generosos e que dão `às esposas um cartão de crédito com limite alto, tendem a cobrar os gastos feitos. Você vai ter que justificar cada comprinha. E, se extrapolar alguma vez, pode ser motivo de briga. Também já vi acontecer. Além disso, há também o fator psicológico: sendo o único provedor, você vai passar a vê-lo como “o chefe” da casa. Igualdade na relação? Esquece.

Essas duas situações não contemplam um terceiro ponto, que na minha opinião também importa. Quem está prestes à casar não quer ser lembrado, mas que é uma realidade que acontece frequentemente: o casamento pode acabar. Pode ser que dure para sempre, pode ser que não. Pode ser que, daqui a 20 anos, vocês decidam a se divorciar e você se verá numa situação muito complicada, tendo que depender de pensão alimentícia do ex para sobreviver. Depois de uns anos longe do mercado de trabalho, uma recolocação pode ser inviável. E aí?

Não quero ser pessimista, mas nós, mulheres, temos que pensar longe no futuro e visualizar todas as opções que temos. Porque costumamos nos envolver emocionalmente e esquecemos o lado prático da vida. Minha vó costumava dizer que “a gente não conhece a pessoa com quem vivemos até termos comido um fardo de 50 quilos de sal juntos”. É sal para muito tempo.

Mas, volto a insistir, quem deve decidir é você. Não aceite a pressão de ninguém. Porque a gente tem que sempre se colocar em primeiro lugar, porque ninguém fara isso por você.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Me mande um e-mail no telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

Arte: Mirella Fontana

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