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Sem enganar nem mentir

“Não vai doer nada!” Essa é uma das primeiras respostas que damos quando a criança precisa tirar sangue, tomar uma injeção ou soro na veia e pergunta: vai doer? Geralmente evitamos o assunto para que o pequeno não fique nervoso nem ansioso. Na hora que chegamos naquela salinha branca, com cheiro de consultório, ela vê uma pessoa de jaleco, aquela cadeira assustadora, a borracha que aperta o braço e todos aqueles algodões, agulhas e seringas, entra em pânico e aí são necessários dois, três para segurar uma criança que se debate mais do que um jacaré que precisa ser imobilizado. Haja trauma!

Graças a Deus, meus filhos passaram por poucos exames e injeções (salvo quando eram bebês, mas aí a lembrança não permanece). A primeira vez que tiveram que fazer exame de sangue maiorzinhos foi ano passado. Biel tinha acabado de fazer três e Rafa tinha quatro anos.

Expliquei tudo o que ia acontecer. A verdade é que a criança não tem necessariamente medo da dor, como qualquer pessoa adulta. Ela tem medo do desconhecido. Então, é importante relatar como é o local, sobre a pessoa de jaleco e luvas, a cadeira, a borracha que aperta o braço. “Mas vai entrar uma AGULHA NO MEU BRAÇO?”, Rafa perguntava assustado. “Vai! Precisamos ver como está seu sangue em um microscópio, e só podemos fazer isso tirando o sangue do seu corpo”. “E como vai ser a dor?”. E eu beliscava ele com a unha rapidamente e falava: “é uma dor assim, ardida, mas rápida! E você tem que ficar com o braço paradinho!”

Não vou mentir. Ele fez as mesmas perguntas muitas vezes. É cansativo. Mas era importante para mim que ele chegasse lá tranquilo, assimilando tudo o que ia acontecer. Biel, como sempre, prestava atenção mas não comentava nada.

No dia do exame, eles estavam tranquilos. Pensei que duraria até o momento de sentar na cadeira e ter que estender o braço. Mas ambos ficaram paradinhos, tranquilos, não choraram nem reclamaram de nada. Fiquei de boca aberta! Confesso que pensei que podia não funcionar. O pânico poderia bater e eu teria que segurar o braço deles. Mas, pelo menos, teria a consciência que não tinha enganado nenhum deles. O laboratório deu aos dois o diploma da coragem!

Essa semana, Rafa teve que tomar soro. Ele estava tranquilo, mas quando chegou viu uma criança sendo medicada e ela gritava muito. Começou a tremer o queixo e disse “Mãe! Estou com medo!”. Respondi: “Eu sei! Eu também estaria. Vamos fazer assim: e se eu te der um pouco da minha coragem, você me devolve depois?”. E ele perguntou: “como? Você pode me emprestar sua coragem? Eu quero!”

Pedi para ele fechar os olhos, coloquei a mão no meu coração, encostei a outra no coração dele e falei para ele respirar bem fundo que minha coragem passaria para ele. (Tem um vídeo sobre isso nos destaques do meu instagram @mamãepata)

E, diferente de mentir, essa técnica da coragem é conseguir usar a parte lúdica do cérebro do seu filho para ele assimilar uma informação e racionalizar alguma coisa. Até adultos sentem medo. Não fale que é uma coisa boba, ou que ele não deveria ter medo porque é grande. Não fale que é feio ele chorar. Rafa perguntou “e se doer?”, respondi “se doer você aperta minha mão bem forte e pensa que vai passar! Só não mexe o braço! Preciso que você seja corajoso! Vou estar aqui com você, passando minha coragem!”

Ele fechou os olhos com força, e perguntou “acabou?”, assim que a enfermeira conseguiu pegar a veia dele. Rafa não apavorou e não gritou. Ele ainda me agradeceu pela coragem emprestada. Mal sabe ele que a sorte é toda minha, por tê-lo na minha vida!   

Foto: Acervo pessoal

Paula Barbosa Ocanha 


Jornalista, casada, trinta e poucos anos, dois filhos e apaixonada por educação infantil. Mesmo antes de casar, eu lia e me interessava por técnicas de educação, livros de pedagogia e questões sobre o desenvolvimento humano, principalmente na primeira infância. Com essa coluna, gostaria de relatar minhas experiências pessoais. E assim espero lhe ajudar, de alguma forma, a passar mais facilmente por essa linda (e assustadora) jornada da maternidade! Vem comigo e me siga também no Instagram @mamaepata

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