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O excelente Não! Não Olhe!

Por Marcelo Minka

Em semana recheada de discursos de presidenciáveis na TV, temos finalmente um lançamento pra lá de relevante nos cinemas da cidade. Não! Não Olhe! Escrito, produzido e dirigido por Jordan Peele (Corra – 2017), o filme não deixa pedra sobre pedra, apresentando uma crítica ferrenha às instituições através de um espetáculo visual incrível.

Tentando evitar spoilers, mas o que conduz toda a trama são dois fios: o primeiro é um contato imediato de quarto grau, quando um humano tem um contato muito direto com um extraterrestre. O segundo fio narrativo é a história de um macaco que participava de um show televisivo dentro de um parque de exposições e, em certo momento, enlouquece e mata todo mundo no set de filmagens. Esses dois fios tecem uma trama aparentemente simples, só aparentemente mesmo, porque o que interessa para Peele é a crítica mordaz ao televisivo, aos Big Brothers da vida, a como nos interessamos por tragédias sangrentas, como nos ligamos às vidas alheias que não nos dizem respeito, tudo pelo entretenimento.

Depois do sucesso de Corra, considerado por muitos um divisor de águas nas narrativas da indústria cinematográfica, Peele desenvolve seu Não! Não Olhe!, pelo menos esteticamente, atrelado a Spielberg e a seu Contatos Imediatos do Terceiro Grau, filme de 1977. A diferença é que a câmera de Peele é ampla, mostra imensidão espacial em contraste com a pequenez humana. E para o diretor, essa pequenez vem de uma necessária reparação histórica para seus personagens negros.

A trama começa com uma chuva de objetos; chaves, moedas, carteiras… e essa chuva muda a vida de dois irmãos que passam a cuidar de uma fazenda que treina cavalos e os aluga para filmes em Hollywood, fazenda vizinha ao parque de diversões onde acontecia o show do macaco. Não há como não se lembrar da chuva de sapos de Magnólia (1999) e seus significados bíblicos que nos recorda de que nem tudo que vem do céu é bom. Nos papeis dos irmãos, Keke Palmer (Alice – 2022) e Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro – 2021) brilham do começo ao fim, deixando o filme ainda mais intenso e nos fazendo rir aqui e ali.

Diferentemente dos filmes anteriores de Peele, Não! Não Olhe! cresce cena a cena, e lá pela metade se transforma em um filme de ação repleto de tensão, sem perder seu fundo crítico. Excelente.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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