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Série “Tapumes”: da construção da vida para a arte

Hoje, o texto será mais curto e intimista…

Esse foi um mês de reflexão… e mesmo para quem não segue as tradições, como eu, a quaresma tem uma egrégora de isolamento e silêncio. Pensando nisso, e nesse momento que tenho vivido, escolhi como mote da coluna de hoje uma exposição que fiz há anos atrás, chamada “Tapumes”.

Tenho um tio que é caminhoneiro. Tudo o que ele acha de interessante por aí, traz para mim. E nada acontece por acaso mesmo, né? Na época, eu precisava de um suporte que fosse inusitado e mais rústico pra pintar. Um dia, chego em casa e descubro que o tio José Ranulpho tinha deixado chapas enormes de MDF na área de casa. (O universo e seus jeitos!)

Quando existe uma tela em branco na minha frente, geralmente vem junto um terror e um pânico, do tipo: o que vou fazer?! “Meodeos” (sim, nada é fácil! Com 20 ou 70 anos de pintura, é sempre a mesma coisa)! Só que eu já sabia o que pintar dessa vez…Era uma história de amor.

O amor é uma energia que move coisas, acontecimentos e pessoas…E muitos artistas pintaram, desenharam e escreveram sobre ele. Na série “Tapumes”, eu pintei sobre uma história de encontro, desencontro, sofrimento, esperança, desespero, fé, alegrias e um grande ponto de interrogação…Todos nós temos uma grande história de amor para contar, eu conto pintando.

A minha começou em 1993, no atelier da Souza Naves. Para quem não sabe, artistas mulheres também têm seus “musos” que inspiram, e lá, do outro lado da rua, eu conheci o meu. Ele aparece em muitas das minhas obras, e como meu processo de criação envolve músicas e poesias, algumas falam diretamente da nossa história, digna de um filme – às vezes Noir, às vezes de comedia, drama… Muitas idas, vindas, anos de ausência, encontros nunca planejados… Mas parecia que uma alma chamava a outra.

Não tenho vergonha de dizer que meus temas, além do mundo feminino, anjos e entidades, sempre foi o amor e o ódio, emoções conflitantes e tão unidas umas com as outras… Eu sempre falei de sentimentos, porque sou um microcosmos que representa tantas e tantas pessoas que querem, mas por vezes não conseguem falar sobre isso.

Pintores são gente! Gente que chora, batalha, range os dentes, aguenta pressões e vivem demasiado, tudo à sua volta. E são porta vozes do que outras pessoas não conseguem dizer, contam a história delas também.

Bem, sem querer, pintei uma história de 24 anos, em apenas oito telas tapumes: cidade, construção, alma, poesia, música como fundo e muitas cores. Tanto tempo depois, faltava apenas uma tela para terminar a história. Pois nessa segunda-feira passada, cheia de sol, cercada por pessoas que amarei até o fim, quis o destino me dar a resposta e as cenas para fechar o ciclo dessas obras – e, agora, finalmente vou poder pintar a última cena que falta, uma menina-mulher de 50 anos se casando com um menino-homem de 47, depois de longos anos de distâncias e amadurecimentos. Como pano de fundo, o céu azul da cidade, cheiro de flor no ar, música do Killers e um coração saindo do peito…

Ser artista dificilmente, muito raramente, tem a ver com ter uma vida retinha e certinha, dentro dos padrões; geralmente tem a ver com ter uma vida intensa e farta de experiências e de cores…

Logo posto a obra que fecha o ciclo dos tapumes e abre o ciclo de uma nova vida. E dedico meu texto de hoje ao meu companheiro e marido, Rogerio (Nenhum) Rigoni, o amor que me inspira e faz parte da minha alma.

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

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