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Arte como escape

Falam da arte como forma de linguagem, fuga, terapia, mas nem sempre é assim. Para a arte ser uma forma de terapia, é necessário que o profissional seja terapeuta, especializado, que entenda da psiquê humana, das técnicas da arte e do processo de criação.

Nise da Silveira foi uma das mais importantes pioneiras nessa área no Brasil. Usando todo cabedal que dispunha na época e as ideias de Jung, um dos discípulos de Freud, conseguiu resultados em casos considerados “perdidos”. (Dica de filme: “NISE: O Coração da Loucura”, com Gloria Pires e elenco espetacular, incluindo a londrinense Simone Mazzer).

A arte para o artista plástico, profissional da área, não utiliza a arte como forma de terapia. Ela é uma PROFISSÃO, não um passatempo e nem sempre terapêutica.

O artista aprende a lidar com seus demônios por assim dizer; encontra seu foco, mas a arte é uma das formas de sobrevivência, de pagar as contas, de cumprir horários e metas…

Muitos leigos acreditam que, além da arte não ser profissão, ela também é prazerosa o tempo todo. A verdade não é essa. Ela serve sim como ponto de apoio, como já descrevi em outros textos, mas a profissão é desgastante, como qualquer outra.

Na terapia ou como hobby, a pessoa relaxa, foge por um tempo dos problemas cotidianos. Na profissão, os problemas cotidianos estão sempre juntos enquanto criamos e, apesar de nos conectarmos com outras esferas ou mundos, o artista nunca perde de vista que ele tem compromissos a cumprir.

Sempre digo que, em alguns momentos, ser artista é uma benção e uma maldição ao mesmo tempo.

 Explico: imagine você em um belo dia de domingo, perto de uma piscina, curtindo um churrasco com os melhores amigos, mas…você é um artista e quando saiu deixou inacabado um quadro, e você está naquela fase feroz da produção, em que todo momento surge uma ideia nova. Vai daí que você não consegue esquecer em absoluto da tal obra inacabada que deixou no atelier e aquele belo domingo não vai conseguir te distrair!

Quantas vezes ouvi que fazer arte deve ser uma “terapia”. Para quem não é artista deve parecer mesmo.

A arte é maravilhosa, uma gama de emoções e sensações tocam você todos os dias, mas existem momentos que, quando não se é artista, a pessoa pode sim, esquecer dos problemas, não se conectar mais com lembranças e emoções que ela não quer. Com artistas, isso não acontece.

Obra de Angela Diana

Como a sensibilidade não tem interruptor, tipo “liga, desliga”, a partir do momento que sentamos para desenhar, pintar, esculpir, tudo o que é mais intenso, mais importante, vem automaticamente.

Não sei se existe alguma pesquisa para suicídios no meio artístico, mas acredito que o número é grande. Não é fácil estar com a sensibilidade à flor da pele e sentir o mundo o tempo todo, perceber detalhes e ainda sobreviver para pagar as contas.

Vemos muitos exemplos de artistas em varias áreas que se mutilam, vão para as drogas ou se matam. O mundo das drogas é muito parecido com o mundo das artes, mas enquanto um leva á morte o outro aponta caminhos. Mas como artista é gente, a pressão pode ser mesmo insuportável para alguns. Criar e sobreviver não é tarefa fácil. Junte- se muito dinheiro na equação (aqueles artistas que chegam no patamar de ganhar milhões!) e a mistura fatal está perfeita.

Que fique bem claro! Não são todos! Somos gente e alguns resistem bravamente!

Acreditem! Artista vive muito mais com os “pés no chão” do que muita gente que eu conheço que se diz racional e antenado com a realidade.

A arte é um dos caminhos para a recuperação do ser humano, para a transformação desse mundo caótico e grosseiro.

Mas o artista é GENTE, e temos que lidar também com nosso mundo interno, com nossas falhas, incertezas e abismos.

E assim como uma ladainha, que fique bem claro: artista não é louco, fora da realidade ou vai passar fome e ser famoso só depois da sua morte…

A realidade é bem mais simples: somos SOBREVIVENTES nesse mundo tenebroso!

Bom resto de semana para todos! Dúvidas , curiosidades sobre arte, perguntem que tentarei responder da melhor forma possível!

Abração!              

 Foto principal: Cena do filme Nise: o Coração da Loucura

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

                                                                                       

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