Caso crônico, solidão de cronista

Por Cassiano Russo

Gostaria de ser escritor. Escrever crônicas e contos e receber por isso. Infelizmente, aqui estou, com a minha escrita desconhecida, consciente de que ninguém levará estas minhas linhas a sério, e por que levariam, afinal? O que tenho a dizer de interessante senão expressar este meu mundinho em palavras para mim mesmo?

Sim, gostaria de ser lido e admirado, porém apenas sou mais um. Ninguém nunca disse algo sério sobre os meus textos, sobretudo os amigos. Talvez eles, como amigos, tenham vergonham de dizer “nossa, seus escritos são uma porcaria!”, “Cassiano, como você escreve mal!”.

Em contrapartida, pessoas que mal conheço às vezes elogiam os meus delírios literários, e eu sinto que, pelo menos uma vez na vida, fiz a coisa certa, que eu atingi um objetivo, embora isso aconteça raramente nessas minhas andanças pela escrita, porque acredito que quem ler este meu escrito não achará nada de interessante nele, nada que mereça ser digno de publicação.

Aposto que, neste exato momento, cem mil cérebros – para lembrar Álvaro de Campos – se concebem como grandes portadores da verdade, e ninguém se lembrará deles – nem de mim – e seremos todos apagados pelo tempo que corrói nossas produções, sejam elas crônicas, dinheiro, sucesso, um nome, ouro, poesia… não sobrará nada de nós!

E assim ficamos isolados em nossos quartos a rabiscar ideias no papel de nossas solidões, carentes de gente, de amigos e de mundos! Somos nossos próprios escravos de nossas convicções, como esta crônica que nada diz além dos disparates de seu autor, um servo da solidão num mundo tomado por uma pandemia, um desiludido da literatura e que ainda tenta se expressar pela palavra para compensar o grito seco de sua alma já consumida pelo desencanto.

Eis-me aqui, a escrever esta crônica e a manifestar a minha revolta de quem registra uma civilização morta, com seus fantasmas ocupados com seus afazeres porque não sabem que são espectros apenas: irrealidades que trabalham, pagam suas contas, amam, procriam e desaparecem como pó. Tão relevantes quanto uma estrela morta e que ainda emite luz, porque ainda há quem veja o seu brilho…

Estou triste, muito triste, pois a luz que brilha no meu céu é luz morta que se mantém pelo tempo e a distância. E eu também me mantenho pelo tempo e pela distância, tal qual estrela que jaz neste meu registro, nesta minha crônica. E ninguém sabe da vida que levo, das tormentas que enfrento, nem jamais saberá! Apenas jazo como um defunto no velório dos meus sonhos, sem a esperança que outrora alimentou minha sede pela vida e pela literatura.

Estou só.

Na escrita e na leitura.

Foto: Pixabay

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