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A polarização política está nos deixando mais doentes? E como isso pode influenciar as políticas públicas sobre drogas?

Por Alessandra Diehl

As comunidades globais enfrentam atualmente uma série de problemas e ameaças complexas, cuja realidade é amplificada pela rapidez e capilaridade das mídias sociais. Estressores ambientais e sociopolíticos, tais como a crescente polarização de opiniões e valores, radicalização e extremismo on-line e off-line, o aprofundamento da xenofobia e do nacionalismo, proliferação de crenças irracionais, as teorias de conspiração e a resistência a medidas racionais de políticas públicas têm sido acompanhadas pela disseminação de tendências psicológicas e comportamentais problemáticas. Na verdade, estes constituem atualmente um grande desafio para a área da psiquiatria e para a saúde mental como um domínio de pesquisa e prática clínica a serem melhor compreendidos e, sobretudo, manejados.

Kesner & Horáček (2022) avaliam que o denominador comum desses problemas globais e da construção da realidade pela mídia é o aumento da incerteza, da imprevisibilidade e da incontrolabilidade, o que levam a respostas defensivas e, em indivíduos predispostos, funciona como uma fonte potente de estresse crônico. Estes contribuem para a inflexibilidade cognitiva, um forte fator predisponente para o desenvolvimento de crenças e atitudes rígidas que, em graus variados, fundamentam as tendências psicológicas e comportamentais adversas mencionadas.

As percepções de polarização partidária podem representar fatores importantes que estão ligados ao aparecimento de problemas de saúde mental e do sono. Estudo de Nayak e colaboradores (2021) investigou se as mudanças na polarização partidária percebida desde a eleição presidencial dos EUA em 2016 e se as percepções atuais de polarização estão associadas ao aparecimento de problemas de saúde física e mental em adultos. Eles utilizaram uma amostra nacionalmente representativa (n = 2.752) de adultos americanos entre dezembro 2019 e janeiro de 2020, mostrando que os participantes que relataram um aumento na polarização tiveram chances 52-57% maiores de desenvolver transtornos depressivos (OR = 1,52, IC 95%: 1,01, 2,29, P = 0,047) e transtornos de ansiedade (OR = 1,57, IC 95%: 1,07, 2,29, P = 0,02) em comparação com participantes que não perceberam nenhuma mudança na polarização. Aqueles também que relataram níveis altos (vs. baixos) de polarização de massa percebida em nível de estado tiveram uma chance 49% maior de transtornos depressivos (P = 0,03).

Exatamente no dia de hoje, 10 de janeiro de 2023, recebemos através de vários portais jornalísticos a informação de que os pais de escolas norte-americanas entraram com uma ação contra as principais redes sociais, devido ao seu impacto na saúde mental de crianças e adolescentes já que se observou aumento de 30%, entre 2009 e 2019, no número de alunos que se sentiam “tão tristes ou sem esperança quase todos os dias, por duas semanas ou mais seguidas, e que [eles] pararam de fazer algumas atividades habituais. A ação visa responsabilizar os conglomerados das big techs por piorar a saúde mental dos alunos e incitar o cyberbullying, inclusive o bulliyng político através de narrativas de ódio que alimentam a polarização política.

Alguns poucos artigos já têm sinalizado também que tanto a afiliação política, como atitudes raciais, influenciam o apoio público às respostas de saúde pública para lidar com os transtornos por uso de substâncias. Estudos americanos sugerem que a percepção pública da epidemia de opioides é menos racializada e menos politicamente polarizada do que a percepção pública da epidemia de crack. Ao analisar uma amostra transversal e nacionalmente representativa (n = 1.161 adultos dos EUA) da pesquisa AmeriSpeak de outubro de 2020, os autores Pyra e al., (2022) exploram como a afiliação política, as atitudes raciais e o estigma relacionado a dependência de opioides estiveram associados com as opiniões expressas pelos participantes em relação a quatro domínios críticos.

Os entrevistados com atitudes desfavoráveis em relação aos negros americanos eram menos propensos a apoiar a expansão do financiamento do Medicaid, aumentar os gastos do governo para fornecer serviços para pessoas que vivem com transtornos por uso de opioides e distribuição de naloxona para prevenção de overdose. A filiação ao Partido Democrata esteve associada a um maior apoio a todas as três medidas mencionadas e a um maior apoio ao tratamento obrigatório (compulsório), que pode ser visto como um substituto para intervenções mais punitivas. Os autores sugerem que as diferenças políticas continuam sendo fatores importantes da opinião pública na resposta à epidemia de opioides nos EUA mesmo depois de controlar o estigma.

Weiss & Zoorob (2021) examinaram 3,8 milhões de discursos no Congresso  dos EUA e 111.000 declarações públicas para identificar (1) discursos sobre a crise das drogas no 97º ao 114º Congressos (1981-2017) e (2) declarações públicas sobre a crise dos opioides no 116º Congresso (2019-2020). Os autores perceberam que os extremistas políticos são menos propensos a falar sobre a crise de opioides e sugerem que o aumento da polarização partidária pode resultar em menos discussão, menor ênfase e especialização em questões relacionadas a saúde pública. Também refletem que é muito provável que o teor do discurso sobre a crise de opioides e outras crises de saúde pública mude com as ondas eleitorais partidárias, dificultando potencialmente o planejamento de longo prazo da capacidade de saúde pública.

O que os dados americanos podem nos ensinar ou serem transpostos para o nosso país? O que queremos para a nossa realidade brasileira tão assustadoramente polarizada? Os dados nos ensinam que o diálogo democraticamente e culturalmente competente, além de cientificamente informado dentro de comunidades politicamente organizadas pode ser uma chave importante para obtermos apoio público para o tratamento dos transtornos por uso de substâncias e para a prevenção baseados em evidências. Então, vamos de fato conversar respeitosamente dentro de nossas diferenças para não adoecermos?

Alessandra Diehl é psiquiatra em Londrina e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)

Foto: Pexels

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