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Meu extraordinário encontro com o Pico Agudo

Por André Luiz Lima

Quando eu criança costumava passar férias no sitio dos meus tios, em São Jerônimo da Serra, e sempre gostei de andar por aí, olhar ao redor, catava pedrinhas no caminho, tomava chuva com os pés na lama vermelha, corria das vacas, brincava com os primos, ouvia novela na rádio na companhia da tia Cida,  rezava o terço à noite no sítio vizinho, dormia com as galinhas que era a expressão de dormir cedo, levantava com as notícias da rádio que meu tio ouvia enquanto o galo cantava, fogão de lenha, bolacha com café da tarde. No meio de doces lembranças, tinha algo que me encantava e estava sempre à minha vista, uma montanha, que para mim tinha formato de camelo e se chamava Pico Agudo.

Foto: Rodrigo Moreira

E assim fui crescendo, a vida tomando rumo, fui correr esse mundão de meu Deus, mas sempre que estava de volta a Londrina, eu conseguia ver o Pico Agudo de um prédio ou de algum lugar alto, com vista para o horizonte, onde sempre me aconcheguei.

Tão perto e tão longe até o dia que fui resolver esse assunto.

Fui com meu primo e uma amiga para uma aventura feliz pelo norte do Paraná com destino a Sapopema, que está a 120 km de Londrina

Essa região, sempre me chamou atenção pelas belezas dos campos com suas plantações de trigo, soja, milho que abastecem o mundo, nosso mar de verde que troca de cores dando ainda mais beleza ao lugar, uma vastidão, mostrando o tamanho desse país.

Foto: Acervo pessoal

No caminho passamos por Assaí, que é conhecida como a “cidade dos japoneses” pela referência de marco histórico da cidade fundada por imigrantes do Japão. Confesso que lembrei dos filmes do cineasta japonês Akira Kurosawa na poética das imagens do caminho.

Chegamos com o  pôr de sol no Assentamento São Luiz II, município de Sapopema, a 30 km do centro da cidade.

Logo na entrada, pedimos informação sobre pousadas e nos indicaram Rodrigo Moreira, da estalagem Brilho do Sol, que possui três chalés rústicos na montanha, cozinha e sanitários separados, balanço infinito e buraco de fogo, ambos com vista para o pôr do sol de janeiro a janeiro.

Quando chegamos na Estalagem já era noite, abrimos uma porteira, entramos e não tinha ninguém. Nesse momento de silêncio, aparece Rodrigo e nos recebe como quem recebe uma visita em casa.

Nos tornamos íntimos no primeiro momento, muito gentil e atencioso, contador de histórias e apaixonado pelo lugar, enquanto mostra os chalés, conta como  foi o início da construção em meio às histórias do lugar, que é  pai de família, condutor de aventura , bombeiro civil, montanhista, fazendo parte da equipe de resgate e produtor para consumo familiar.

Com tudo isso, é impossível não relaxar com o friozinho da noite sendo oferecido pela natureza exuberante com seus aromas e sons.

Rodrigo nos levou para jantar na Nina, dona da Pousada Rural e restaurante rural  “La Casa Nina”, no bairro Lambari, que faz uma comida caseira deliciosa onde tive o prazer de, como era dia de semana, ver televisão na sala,  pegar a comida no fogão da casa e comer na sua cozinha, em meio às conversas com seu marido e um sobrinho que está por ali. Como não ser tão feliz?

Voltamos para a estalagem felizes, Rodrigo já tinha deixado uma fogueira pronta para ser acesa e assim terminei essa noite como quando era criança na fazenda, só que agora aos pés do Pico Agudo.

Levantamos pela manhã e a paisagem era espetacular, o café da manhã  foi servido com café, pão caseiro, manteiga, céu azul, vista das montanhas, em uma mesa de madeira cheias de belezas de um cotidiano, com 137 famílias que transformaram esse assentamento de reforma agrária em um lugar próspero, onde cada uma desenvolve suas atividades, uns receberam de herança de pai e mãe, outros criam gado, uns vendem leite, hortaliças, carvão vegetal, outros trabalham fora e 30 famílias trabalham com atividade turística, sem contar que muitos adultos que ali frequentavam a escola hoje são doutores.

Nos preparamos para finalmente subir Pico Agudo com 1.100m de altura, um dos pontos mais altos do Norte do Paraná também conhecido como Monte Ybiangi ou ainda Ybiagi, como referenciada em linguagem nativa ( índios Kaigangs), nas terras pertencentes à antiga Fazenda Inho-ó, às margens do Rio Tibagi.

Rodrigo, como um bom guia, vai abrindo caminho até a escalada do Pico que são dois km de trilha com nível médio a difícil, não sendo recomendado para quem tem medo de altura. A paisagem, durante a escalada, emociona ainda mais porque eu estava no horizonte tão sonhado.

No topo do Pico Agudo a paisagem encanta pelo poder e a beleza da natureza seguindo seu curso normal.

Que sensação maravilhosa é A Arte dos Encontros!

Voltando para a estalagem, passamos para conhecer Marlene e seu Antônio, da pousada Serra das Nuvens que, assim como todos, nos receberam com carinho, culinária especializada, boas histórias em uma paisagem digna de bons momentos.

Em dois dias, visitei mirantes, restaurantes, balanços, cachoeiras, cabanas, pousadas,  tive encontros inesquecíveis que me ajudaram a ver a beleza que às vezes não percebemos e que estava tão perto.

A Arte dos Encontros com Rodrigo me confirma a certeza do caminho, pois como diz o poeta espanhol Antonio Machado, “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”

Viva a Vida no Norte do Paraná!

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural

Foto: Acervo pessoal

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3 Comentários

  1. Sempre me surpreende a maneira de olhar e a forma de se expressar, provocando emoções e encantamento. As fotos lindas e potentes reverberando a beleza dos lugares. Grata!

  2. André …. Grato por visitar nossas humildes instalações !
    grato tbm por visitar sapopema , a capital do turismo de aventura que a cada dia se fortalece , a cada novo dia temos novos parceiros na atividade . Sapopema é linda com paisagens naturais de encantar os olhares de todo visitante. Gratidão por fazer parte desses momentos!!!
    Abraço , Rodrigo Moreira

  3. Belíssimo texto André. A descrição que você fez eu também faria se tivesse a intimidade que você tem com as palavras pois eu também passei alguns anos dos meus 61 anos aos pés do Pico Agudo na fazenda Inho-Ó e, por isso, entendi perfeitamente tudo o que você escreveu sobre este lugar ímpar no mundo. Obrigado e parabéns pela publicação deste texto belíssimo e real.

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