Você viu o Zaqueu? Nem eu

Aos 34 anos, o Teatro Zaqueu de Melo permanece fechado. Primeiras reformas começam em pouco mais de um mês, mas não há previsão de reinauguração

Renato Forin Jr.

Equipe O Londrinense

Quem não sente saudade de aguardar o início do espetáculo ali na calçada de petit-pavé no coração de Londrina, sob a luz âmbar dos postes, desviando da mira dos pombos? Há quase dois anos, as portas do Teatro Municipal Zaqueu de Melo não são abertas ao grande público.

Com a programação suspensa desde julho de 2017 para adequações de segurança, o histórico palco segue fechado, à espera das primeiras reformas, que devem começar, segundo o Secretário de Cultura Caio Julio Cesaro, dentro de um mês a quarenta e cinco dias. Entretanto, as reestruturações necessárias e exigidas pelo Corpo de Bombeiros são bem maiores que as previstas nestas obras, de modo que não há previsão para a efetiva reabertura.

Inaugurado em um 12 de abril – de 1985 –, o teatro ocupou exatamente o Tribunal do Júri do antigo Fórum de Londrina quando a sede deste poder passou para o Centro Cívico. O prédio de arquitetura clássica foi construído nos anos 1950 e hoje também abriga a Biblioteca Pública Municipal.

Há quase 20 anos, ele não passa por reformas importantes. Com a atualização das normativas de segurança, foi necessário, usando palavras do Secretário, a “suspensão preventiva” – decisão que foi tomada depois de diálogos com produtores e organizadores de eventos culturais.

“Ele tinha que realmente ser fechado para ser reestruturado. Um grande problema era o banheiro, que ficava no andar de baixo e não dava para ser usado. Segundo, as coxias e o camarim estavam completamente desajustados. Várias poltronas estavam estragadas e o ar-condicionado não funcionava”, lembra Marco Antonio de Almeida, diretor artístico do Festival Internacional de Música de Londrina.

Além destas questões, para a emissão do alvará de funcionamento, havia as demandas técnicas com relação à abertura de saídas de emergência e acessibilidade.  Em 2017, a Câmara Municipal aprovou emenda com autorização de recursos na ordem de R$ 1,8 mi para as reformas do Zaqueu.

Esta previsão orçamentária, entretanto, entrou no contingenciamento proposto pela Prefeitura no ano seguinte. De acordo com Caio Cesaro, um outro problema foi a falta de “projetos complementares” que possibilitassem à Secretaria de Obras realizar um orçamento amplo, que abarcasse as mudanças estruturais em todo o edifício. “O Zaqueu de Melo não é visto como unidade separada da Biblioteca Pública, é um único prédio. Os Bombeiros analisam como uma coisa só”.

“Mesmo havendo contingenciamento, a gente continuou fazendo tudo o que tinha que fazer e, graças a isso, no segundo semestre [de 2018], o Prefeito autorizou colocar no orçamento deste ano o valor”, explica Cesaro. O recurso, então, investido é bem menor: entre R$ 350 e 400 mil para reformas mais urgentes tanto na Biblioteca quanto no Teatro.

Dentre elas, estão reparos no telhado, ampliação de calhas, pintura externa, ajustes na calçada, acessibilidade do lado de fora e paisagismo. O serviço já foi licitado e está em fase de formalização dos contratos, com início para maio.

“Faz uma falta enorme”

A classe cultural sente, particularmente, a falta do Zaqueu como alternativa para acolher espetáculos menores e mais intimistas. Com capacidade para 195 espectadores, a sala possui perfil bem diferente de grandes teatros, como o Ouro Verde e o Mãe de Deus, além do charme de estar em um prédio histórico estrategicamente situado entre a Catedral, o Bosque e a Concha Acústica.

“Ele faz uma falta enorme para o Festival de Música, primeiro por sua localização, segundo porque é um espaço íntimo, gostoso, principalmente para espetáculos intimistas, como foi o da Cida Moreira, recitais de canto, música de câmara, duo de piano e violino”, exemplifica Marco Antonio de Almeida, que prepara a 39ª edição do FML.

A demora na reabertura também atinge eventos mais jovens. O Zaqueu de Melo foi o palco principal do ECOH – Encontro de Contadores de Histórias de Londrina em suas quatro primeiras edições. Desde o fechamento, transferiram as atividades destinadas a espaço cênico para o Teatro do Centro Cultural Sesi/AML, cuja capacidade é menor.

“O Sesi tem 126 lugares e o Zaqueu tinha em torno de 200. Se pensar que costumamos trabalhar com casa cheia, são 70 lugares a menos que a gente tem. Se você multiplica por dez apresentações, são 700 pessoas que poderiam estar usufruindo das histórias e que acabam ficando de fora por a gente não ter o Zaqueu”, calcula Claudia Silva, coordenadora do ECOH.

A previsão, segundo o Secretário, é que as obras que estão prestes a iniciar demorem cerca de três meses. A ideia é que, ao final delas, haja uma cerimônia que anunciará o tombamento do prédio – processo documental que já está pronto no Patrimônio. Isso não significa, porém, que o Teatro será reaberto em razão das exigências técnicas das outras reestruturações.

“A dificuldade de ter orçamento está grande. Nós conseguimos a sensibilidade do Prefeito para fazer as reformas na Biblioteca, Zaqueu e Museu de Arte. A gente entende a importância do Zaqueu e estamos trabalhando para que seja recomposto no menor tempo possível. Não consigo te dizer se é algo que ficará pronto nesta gestão”, diz o Secretário, acrescentando que também está atento a possibilidades de financiamento em outras esferas.

Foto: Renato Forin Jr./Equipe O Londrinense

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