Um paraíso para chamar de meu

Chegar ao litoral paranaense é o mesmo que dar um mergulho na história. A Estrada da Graciosa em seus 30 km que ligam Quatro Barras a Morretes e Antonina, por exemplo, já é um convite ao passado. Com parte de seus paralelepípedos preservados, a estrada atravessa o trecho mais conservado de Mata Atlântica do Brasil, marcado pela mata tropical e pelos riachos que nascem na Serra do Mar. Por isso, em 1993, parte do trecho da Serra foi declarada pela Unesco como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Para se chegar até Morretes, existe a opção de ir pela estrada, ou descer a Serra do Mar de trem. Desci a serra pela primeira vez, de trem. Depois repeti a experiência pela estrada. Não sei especificar qual das duas é a mais emocionante.

Foto: Acervo pessoal

Na descida de trem fui a trabalho, logo após o trecho ser reativado. Nele, o trem desliza por trilhos cercados por precipícios, uma experiência única. Na vez em que fui tive o privilégio de poder ir no último vagão, do lado de fora. Não sem antes ir à cabine do condutor e realizar o sonho de acionar o apito.

Ao todo, o trem percorre 74 km até Morretes e atravessa 40 túneis, sendo um deles o maior em extensão do país. O Túnel Roça Nova, o mais elevado da linha, a 955 metros acima do nível do mar, e com 457 metros de extensão. A escuridão é tanta que é impossível enxergar sequer a pessoa que está sentada ao seu lado.


Foto: Acervo pessoal

Seja pela estrada da Graciosa ou pela ferrovia, o melhor de percorrer os dois caminhos é chegar em Morretes. Cercada por picos e morros (daí o nome ), a cidade tem inúmeras atrações, começando por sua natureza exuberante e sua culinária tradicional. Não tem nada melhor do que sentar em um dos restaurantes à beira do rio e saborear o prato típico da região, o barreado. Patrimônio local, a iguaria tem origem açoriana e vem de um ritual no preparo do prato mantido há mais de 300 anos. A origem é atribuída aos portugueses que vieram para o litoral do estado no século XVIII.

A simplicidade no modo de seu preparo garantiu que as festas de fandango, outra atração regional, tivesse “sustância” para aguentar a longa maratona de três dias, o tempo que dura. O prato é preparado em panelas de barro e leva apenas carne e temperos. É cozido no próprio vapor, já que sua tampa é vedada com cinzas. Cozinha na brasa por dias e pode ser requentado sem perder o sabor. É servido com arroz branco, farinha de mandioca e banana. Os restaurantes locais sofisticaram e acrescentaram peixe frito e camarões. Até hoje ninguém reclamou.

Durante os dias de festa do fandango, o prato era reaquecido a cada refeição. O sabor não se perde, pois o caldo grosso que se forma é que mantém o sabor da carne que se desmancha devido ao grande calor gerado pela panela de barro, sempre levado ao fogo e mantido nas labaredas, durante toda a festa. A festa se mantém até os dias atuais.


Foto: Acervo pessoal

Já a cidade de Morretes é uma teteia, de tão mimosa. Seus casarões em estilo português perfeitamente preservados e seu pequeno comércio, convidam para um passeio a pé pela cidade. Grande produtora de bala de bananas e de gengibre, produtos que são plantados na região, a cidade também oferece objetos em pedras semipreciosas, outro tesouro local, além de cachaças de alta qualidade, algumas premiadas internacionalmente.

Conta a história que, no século XVI, a região atual do município era território dos índios carijós, etnia indígena que ocupava a faixa litorânea brasileira desde Cananéia até a Lagoa dos Patos. A partir de 1646, com a descoberta de jazidas de ouro, a região passou a ser ocupada por mineradores e aventureiros provenientes da cidade de São Paulo. Em 1721, foi fundado, oficialmente, o povoado de Morretes.

História, culinária e uma paisagem de tirar o fôlego são alguns dos ingredientes para visitar a cidade. E neste período de isolamento social muita gente tem descoberto alguns paraísos no meio da mata, com paisagens dignas do francês Jean-Baptiste Drebret, que aliás, esteve nessas paragens e deixou um arquivo de aquarelas fenomenal.


Foto: Acervo pessoal

Não tem como não se encantar. Seja de trem com seus túneis monumentais, ou pela estrada com suas curvas e caminhos de hortênsias, chegar na região é o mesmo que desembarcar no paraíso. Um paraíso tropical, que chamarei de meu pelos próximos meses.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Acervo Pessoal

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *