Troca letra e show no Buraquinho

Raquel Santana (*)

Quem nunca foi co-autor de algum sucesso musical, que atire o primeiro banquinho que encontrar. Já compus com Lulu Santos, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Até ponto de macumba já entrou em meu repertório de sucessos musicais. Não sou fraca, não. Minhas co-autorias já correram todos os dials do mundo, em alguns em primeiro lugar nas paradas de sucesso.

Sabe aquela letra em que tem alguém tocando de biquíni sem parar? Então, essa parte da letra é minha. Sei que tem um monte de gente que reivindica a co-autoria, mas não vem não que cheguei primeiro. Afinal sou dessa turma meio bossa nova e rock ‘n rolll. Faz parte do meu show. O B. B. King sabia disso.

Mas a música que mais gosto é uma que a Clara Nunes cantava. Maravilhosa, a morena de Angola que carregava o chocalho amarrado na canela em sua voz clara e límpida (sem trocadilho) bradava “ Iansã cadê Ogum” e o coro repetia: “Foi pro mar’. Juro que entendia: “minha santa de Ogum”.

Ainda no reino dos Orixás, já afirmei que Oxossi brilha, ele brilha lá na praia e não na “lacaia”. E também repeti varias vezes que “eu vi mamãe exu na cachoeira “. Perdoem me os santos pela troca. Oxum certamente não se importou porque é ela quem me protege, junto com Oxossi, o que explica tudo.

Por anos, cantei essas e outras letras de música erradas, o que virou piada entre quem me conhece.

Houve uma época em que o Buraquinho do Ceca, na UEL, era o palco preferido da nossa turma. Lá, algumas letras eram trocadas de propósito. E todas vinham acompanhadas de coreografia. Tenho um amigo que toca e canta como um rouxinol. E lá no Buraquinho dávamos nosso show particular no intervalo – e algumas vezes durante – as aulas. Vinha estudante de todos os centros participar.

O Buraquinho teve uma participação política e artística importante na vida daqueles anos de transição. Nele, eram feitas as mais diversas manifestações. Espaço democrático, viu artistas, autores e estudantes passarem pelo local, com seus degraus que no inverno congelavam a bunda. O lugar, que mais parecia um coreto, era “abraçado “ por um pé de Primavera, que em sua estação, florescia. Se fechar os olhos, ainda sou capaz de sentir o cheiro, o calor e os sons daquele lugar que hoje só existe na minha memória.

(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

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