Sonhos, premonições e outros babados

Esta semana assisti a live do médico Drauzio Varela com o músico Mano Brown, dos Racionais MC. Uma porrada que me levou – ou elevou – para outro patamar do pensamento. Discutiram, entre outros assuntos, racismo estrutural, miséria, pandemia, fama e dinheiro. Os Racionais fazem parte de um período muito especial da minha vida, nos meados dos anos 90, quando houve um boom de bandas alternativas. Morava em São Paulo e tive a sorte e privilégio de ver vários shows. Além dos Racionais, Emicida, Raimundos, este último com uma história bem interessante, que vou contar a seguir. Acreditem se quiserem, tenho testemunhas.

Na live, Brown conta que teve um sonho recorrente e premonitório, antes da pandemia. Já tive vários e se não tivesse dividido com mais pessoas, nem eu mesma acreditaria. E já tive intuições que me salvaram a vida.

Vou começar com os sonhos. Quando meu irmão morreu em 2002, sonhei que minha mãe, que chegaria para me visitar, trazia algumas peças de roupa dele, para distribuir entre os familiares. Vi até o desenho da camiseta. No sonho, ele pediu para que suas coisas não fossem doadas. Eu nem sabia que a mãe estava trazendo. Contei o sonho para o meu outro irmão, com todos os detalhes. Bem, ela chega e estamos todos reunidos na sala e minha mãe tira da mala, exatamente a camiseta que vi e descrevi. Mistérios do universo.

Mais recentemente, no período que estive hospitalizada, foram vários. O mais marcante também envolvia minha mãe, que hoje já está em outro plano. Nele, andávamos de braços dados, cercadas por muros de cemitérios. Ela me levava para fora, em direção à uma luz. Não estava anestesiada e nem medicada com opinácios, juro. Interpretei como uma ajuda espiritual. Minha mãe me levando para a vida, pela segunda vez. Lembro da cena com detalhes.

No hospital também sonhei com um pai de santo que conheço. Nele, caminhávamos em direção a um cruzeiro, também de cemitério. Rezamos e demos um dos abraços mais reconfortantes de que me lembro.

Pois é, tive muita ajuda espiritual no hospital.

Também foi lá que sonhei com a morte. Aquela que vive no nosso imaginário, com capa preta e foice. Foi na noite que fui internada. Fiquei muito impressionada. Nele, uma figura muito magra, deitava em seu colo. Era uma mulher, que de tão magra, seus dentes destacavam no rosto, enormes. Contei para a minha filha e qual não foi nossa surpresa ao ver chegar na cama ao meu lado, exatamente a figura que sonhei. Nós duas não acreditamos. Era uma paciente com câncer e a filha estava junto. Puxamos conversa e quando vimos, estávamos chorando juntas, abraçadas. Foi muito forte.

Já tive sonhos que salvaram peles, também. Um amigo tinha uma plantação na floreira de uma erva daninha (pra ele). Sonhei que a polícia invadia o lugar e achava a plantação. Liguei contando o sonho e ele arrancou. Dias depois, me retornou assustado e agradecido. O velhinho do mesmo bloco, teve o apartamento e a floreira revistada, com mandado de apreensão e tudo. Foram no lado oposto. Quem anotou a denúncia, anotou errado. A filha dele contou. Nem eu acreditei.

Mas a premonição mais maluca que tive, salvou minha vida. Foi naquele fatídico show dos Raimundos em Santos. Na época morávamos em São Paulo e, aos finais de semana, íamos para a praia. Minha mãe morava lá. Minha filha ficava com ela e íamos curtir o verão. Vi que tinha show da banda no clube ao lado. Era uma sexta-feira. Saímos do trabalho e descemos para Santos. Deixamos a filha e fomos para o clube.

Minha implicância começou logo na chegada. Lembro como se fosse hoje da fila, com todo mundo vestido de preto e calçando coturno. Fui acompanhando os pés até chegar ao segurança, na entrada. Olhei para cima, tinha uma escada, uma porta e uma janela de vidro. Fechada. Perguntei: por onde entra? Por aqui, ele respondeu. E por onde sai? Por aqui, também! Virei e disse que queria ir embora. Por quê? Não quero morrer pisoteada, foi a minha resposta. Fui embora sob protestos.

Já em casa, de madrugada, acordo com barulho de sirenes. Pensei: deu ruim. Mas não me preocupei. Dia amanhecendo, minha mãe praticamente invade o quarto e diz: graças a Deus vocês estão aqui. Pois é, naquela noite, no show dos Raimundos, oito pessoas morreram pisoteadas. Ouvi que nunca mais me questionariam.

Por fim, sonhei com a morte do Chico Xavier. Atualmente aguardo ansiosa, sonhar com os números da Mega-Sena. Quem sabe?

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!


Foto:  Pixabay

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *