Sapopema, meu amor

Raquel Santana (*)

Quando tudo ainda era mato e não havia nenhuma infraestrutura, íamos acampar em Sapopema, um paraíso próximo à Londrina, muito antes do turismo radical virar modinha. Eu nunca tinha dormido fora de casa, quiçá numa barraca. Mas na época não havia a infraestrutura que tem hoje, e lá fomos nós, cheios de comidas não perecíveis, muita fruta e água, prontos pra descer as cachoeiras do lugar de bóia.

E não foi uma vez só. Perdi as contas de quantas vezes fomos. Tive um namorado, que depois virou noivo, um maestro carioca que amava Sapopema. Era ele vir para Londrina, que lá íamos nós. E claro que não poderia deixar de existir muita pagação de mico em todas as vezes. Mas teve uma em particular, inesquecível, que vou contar aqui.

A gente tinha acabado de se conhecer e, no auge da paixão, fomos acampar. Confesso que não é a melhor situação para namorar. Cagar no mato não é para mim. Mas, enfim, fomos. Armamos nossa barraca e partiu cachoeiras. Depois de muito andar, nadar, tomar sol e namorar, fomos dormir. Barraca do beijo montada, noite de lua cheia e céu limpo, a noite mais parecia dia, mais romântico, impossível. Prometia.

Foi quando alguma coisa estranha começou a acontecer. Do lado de fora da barraca, alguém batia na lona sistematicamente. Tum, tum, tum. Mas estávamos sozinhos! E quem tinha coragem de olhar para fora? Tum, tum, tum. Numa rápida espiadela, vimos um monte de pontos brilhantes espalhadas pelo lugar e não eram vaga-lumes. Também começamos a ouvir sons estranhos. Cadê coragem para conferir? Melhor ficarmos quietos, bem agarradinhos, e esperar o dia nascer.

Ainda de madrugada, dá-lhe coragem para sair. Bem devagar, ao abrir o zíper da barraca, qual não foi nossa surpresa ao descobrir que acampamos num pasto! E os sons e pontos luminosos que vimos na madrugada nada mais eram do que os animais. O barulho na lona provavelmente era um rabo do animal batendo e os pontos eram os olhos brilhando. Rimos muito dessa aventura.

Foi nesse dia que conhecemos o seu Francisco, o capataz da fazenda que acampamos. Ao narrarmos nossa experiência para ele, seu Francisco nem se alterou. Disse que por lá já tinha visto coisas inexplicáveis acontecerem. Encheu nossa cabeça com histórias de disco voador – os inúmeros que viu passar pelo lugar. E alguns contatos que teve com seres estranhos. Mula sem cabeça, saci-pererê, homem da caverna. Todos passaram pela narrativa do homem, que passou horas agachado com seu cigarro de palha, desfilando todos os personagens do folclore brasileiro para nós. Seu Francisco pontuou nossas conversas por muito tempo.

Também fomos em turma para lá. Para descer o rio, levávamos bóias, dessas de pneu de carro. O truque era amarrar uma corda entre a bóia e a mão, para que a correnteza não a levasse. No lugar, para quem não conhece, a gente faz percursos por água e por entre as pedras, na época seca. Na cheia é impossível. Uma delícia.

Mas uma vez fiquei para trás e me perdi da turma. Até aí tudo bem. O problema foi quando chegou um pedaço do percurso na água e minha bóia tombou e cai de cabeça em um buraco. Não tinha espaço para eu me virar. E a correnteza me afogando. Tive a presença de espírito de impulsionar meu corpo e assim, conseguir sair. Lembro que depois chorei uma cachoeira do medo que passei.

Nunca ficamos muito tempo no lugar. Geralmente íamos no sábado e voltávamos no domingo. Para comer, o cardápio era sempre o mesmo: numa panela o macarrão temperado com a sardinha em lata era o banquete servido a luz da lua. Sempre tinha alguém com um violão. De sobremesa, a melancia que havia passado o dia debaixo da água do rio para refrescar. Ainda hoje dá para ouvir o som dos grilos e as vozes de alguns queridos que já não estão mais aqui, mas que amaram aqueles tempos e aquele lugar tanto quanto eu.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Salto das Orquídeas – Prefeitura de Sapopema/Divulgação

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *