Renasci dentro de uma UTI

Raquel Santana (*)

Há três anos, em maio de 2017, acordei em uma UTI, e por lá permaneci por vinte dias. Abri os olhos cercada por gente vestida de branco e usando máscaras, cenário que milhares de brasileiros vivem hoje devido à Covid-19. E durante todo esse tempo, eu e uma equipe incansável lutamos pela minha sobrevivência. Só quem esteve numa situação dessa sabe o que é. A gente sai de lá resignificando a vida. E realmente, os profissionais da saúde merecem toda a nossa reverência.

Uma vez ouvi de um médico em uma entrevista, que numa emergência, na UTI eles priorizam quem tem mais chances de sobrevivência. Ao acordar em uma, pensei: estou no lucro. Ao acordar fui informada que, devido à uma obstrução intestinal, meu corpo estava entrando em sepse, o que exigiu uma cirurgia de emergência. Perdi várias partes do intestino, um pedaço do ovário esquerdo e meus rins já haviam parado.

Nua na cama, levantei o lençol e o cenário debaixo dele era devastador: um corte de fora a fora dava praticamente para ver meus órgãos internos. Tinha ainda mais dois cortes transversais do lado esquerdo e outro do direito. No lado esquerdo uma bolsa de colostomia. No outro, outra para drenagem. Me garantiram que seriam temporárias, e foram.

A partir daí foi uma luta contra o tempo e pela vida, amparada por uma equipe multidisciplinar incansável. Dividida em baias, a UTI é um lugar muito doido. Para cada baia, as enfermeiras usam uma roupa separada. Ou seja, para me atender, eram obrigados a colocar e depois tirar o avental, máscara e luvas. A higiene é absurda. Tudo, mas absolutamente tudo, é desinfetado. Caiu na cama/chão? Lixo. Eram dezenas de luvas e máscaras por dia. Todo cuidado é pouco, pois por mais desinfectado que esteja, o lugar é uma fonte de bactérias.

Na UTI que fiquei, tinha pacientes com várias comorbidades. De gente baleada a pacientes com AVC, presenciei um glossário médico passar pelo local. Eram dez leitos, cinco de cada lado, separados por cortinas, muito parecidas com as usadas como “corta luz”. São fáceis de limpar. Terezinha, a moça da limpeza, todos os dias batia um papo comigo. Fiquei sabendo a vida dela todinha enquanto ela deixava minha baia um brinco. Impossível não criar laços por quem torce pela gente.

O início foi muito difícil e dei muito trabalho. Não podia comer e nem beber água. Comer tirei de letra, mas a água! Seduzi enfermeiras, implorei com todas as forças, chorei, mas elas foram irredutíveis e imensamente pacientes. Não pode, não pode. Ponto. Só podia molhar a boca com a gaze. Sonhei com um copo de água. Mas aos poucos foram liberados 25, depois 50 ml, até demanda livre.

Aos poucos fui entendendo a rotina de uma UTI. Ficava cansada só de ver. São 24 horas de atividades ininterruptas. Gente gemendo, gente gritando, gente morrendo. Presenciei a morte de uma senhora na baia ao meu lado e chorei mais do que os meninos dela. Não tem coisa pior do que perder uma mãe.

Tirando a extrema magreza, os pontos e os drenos, eu estava bem. Aos poucos, a gente também vai estreitando laços com quem cuida da gente e chegou uma hora em que a porta da minha baia era super frequentada. Troquei receitas (mesmo sem poder comer), experiências e histórias com todas. Era uma UTI comandado por mulheres. Os homens eram médicos. Lembro de um, em particular, um nicaraguense sisudo, que me colocou para sentar e apesar dos meus protestos, disse que um dia eu iria agradecê-lo. Estava coberto de razão.

Quando disse que a atividade era intensa, não exagerei. Quando se fala em cuidados intensivos, não há descanso. Ligada à várias máquinas, todos os dias era assistida por uma fisioterapeuta, por um psicólogo, um nefrologista (pros meus rins) entre outros especialistas. Fora os exames diários. De sangue a radiografia do pulmão devido à posição que ficamos na cama, não houve um dia ou uma noite de sono sem que tivesse sido interrompida por algum procedimento.

Tudo o que se possa imaginar é feito na cama. O primeiro banho foi a coisa mais gostosa do mundo. Uma equipe de sete estudantes de enfermagem me lavou com toalhas cujo cheiro guardo as melhores recordações. Nessas horas a vergonha vai pro espaço. Naquele maio/junho de 2017 fez um frio de lascar. Mas naquele lugar a temperatura era de primavera. Assim como foram meus dias de recuperação, um a um.

Uma vitória por dia. Sentar, ir pro banho sozinha. Só não comi. A comida veio por meio intravenoso. Foram dez dias tomando uma mistura energética pelas veias. Umas bolsas que, se não fosse o SUS, jamais teria condições de pagar. Aliás, feitas as contas, meu total de 22 dias de internamento – vinte de UTI e dois de enfermaria – daria para comprar um bom imóvel. Não desembolsei um tostão.

Sai do hospital em uma manhã gloriosa de sol. Fui para casa com a janela do carro aberta. Sentia falta de tudo. Da família, do céu, dos meus animais.

Três anos depois, ainda me encontro em recuperação. Ouvi dos médicos que renasci. Se a experiência mudou minha vida? Mudou. Quase morri. Mas como diz Chico Xavier, o que muda a vida mesmo, não é a experiência de quase morte, mas a morte em si. Bem, essa experiência fica para outra hora, espero que leve um bom tempo.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

Foto: Pixabay

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