Preconceito e estigma contra doenças mentais afastam as pessoas do tratamento

Entrevista com a psiquiatra Alessandra Diehl esclarece alguns pontos importantes sobre doenças que levam ao suicídio

Telma Elorza

O LONDRINENSE

No Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, O LONDRINENSE vem a público prestar solidariedade a quem sofre com depressão e outras doenças mentais que levam ao desespero profundo, no qual o suicídio parece ser a única solução. Não é.

Queremos deixar claro que depressão não é “frescura”, não é “falta de objetivos”, não é “falta de Deus”. É doença e precisa/pode ser tratada. O preconceito e o estigma sobre isso gera mais problemas. Para esclarecer alguns pontos, conversamos com psiquiatra, educadora e escritora londrinense Alessandra Diehl. Confira a entrevista

Ainda hoje há muito preconceito com as doenças mentais?

Sim, o preconceito e o estigma com relação aos transtornos mentais ainda são altíssimos em nossa sociedade. Estigma e preconceito são barreiras importantes para o acesso ao tratamento de forma mais rápida, mais adequada e mais eficiente e isto têm implicações diretas no prognóstico destes transtornos. Sabemos que 41% da população brasileira já declarou ter antipatia, ódio ou indiferença em conviver com usuários de substâncias, por exemplo, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo realizada em 2009. Portanto, o preconceito afasta as pessoas de tratamento, rotula, estigmatiza e, sobretudo, pode aviltá-las de direitos primordiais. Por isso,  informação de qualidade e baseada em evidências científicas pode ser uma das ferramentas para a promoção de saúde e enfrentamento do preconceito.

É comum a família negar o problema até que a coisa se torne realmente perigosa e seja obrigado buscar ajuda?

Sim, algumas famílias tendem a negar determinados problemas por vergonha, medo e, sobretudo, desinformação e perpetuação de mitos e tabus com relação aos transtornos mentais. Com relação a depressão, por exemplo, estamos em pleno século XXI e ainda existem reproduções de falas de que depressão “é falta de fé”, “falta do que fazer”, “coisa de gente rica”, ” coisa de gente preguiçosa”, “coisa de gente que inventa doenças”.

Depressão é uma doença que não escolhe perfil sociodemográfico! Estes tipos de falas desprovidas de conhecimento real, além de reproduzir desinformação e estar repleta de moralismo, acaba por culpabilizar a pessoa que sofre com este tipo de transtorno. Muitas vezes, quem sofre de depressão acha que ” deveria se esforçar mais para melhorar”, como se fosse culpada por estar em depressão.

Quais são as principais doenças mentais que afligem o brasileiro?

São os transtornos do humor e os transtornos ansiosos e os transtornos por uso de substâncias

É possível ter uma vida normal quando se tem algum transtorno psiquiátrico?

Temos que nos questionar o que venha a ser ” normal”. Normal é um conceito apenas estatístico. Não normal, não significa necessariamente doença, transtorno. Mas, sim, apenas que saiu da média encontrada para aquela população. Acho esta palavra um pouco perigosa. Gosto de pensar em vida funcional, ou a palavra funcionalidade, a qual talvez teria mais eco nesta pergunta.

Creio que dependendo do tipo de transtorno mental, vamos ter graus distintos de funcionalidade para a vida diária, a vida afetiva e a vida de relação com a família e a sociedade. Por isso, que a tendência atual de algumas doenças é olhar e compreender as mesmas dentro de um spectrum. O que quero dizer com isto? Existe um espectro de possibilidades de forma dimensional de gravidade. Por exemplo, é como entendemos hoje o autismo. Passaram a ser chamados atualmente de Transtornos do Espectro Autista (TEA) por entendermos que existe uma gama de possibilidades que vão desde autistas muito graves – que não tem qualquer comunicabilidade e interação social para além do seu mundo interno – como também existem portadores de autismo que poder ser mais funcionais e ter um trabalho, vivenciar sua sexualidade, desenvolver atividades diversa dentro de seus interesses e possibilidades.  

As principais doenças mentais se desenvolvem até os 30 anos? E que as drogas podem ser gatilhos para o “aparecimento” da doença mental?

Existem doenças mentais que podem começar muito cedo na vida, como por exemplo o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDHA), autismo, transtornos do comportamento, depressão, ansiedade entre outras, as quais podem começar na infância. Daí a importância da psiquiatria do desenvolvimento que tenta ter um olhar mais criterioso para a questão dos transtornos mentais ou psicológicos da infância a fim de se fazer diagnóstico precoce, e sobretudo, evitar a cronificação de alguns sintomas. Já a segunda pergunta, sim é verdade. O uso de maconha, principalmente , é uma das drogas que tem estreita associação com o surgimento de esquizofrenia.

Quais as maiores causas de internação, hoje?

Creio que seja dependência química, seguida por transtorno do humor e tentativas de suicídio.

Há uma luta antimanicomial, para que se acabe com as internações. É possível isso? A senhora é contra ou a favor dessa luta antimanicomial?

Sou contra manicômios, o que é bem diferente de ser contra hospitais psiquiátricos e internações em hospitais psiquiátricos e/ou em leitos de hospitais gerais com enfermaria de psiquiatria.  Não acredito que podemos “acabar” com as internações psiquiátricas. Interessante que não se fala em acabar com internações para pessoas que estão tendo um infarto agudo do miorcárdio (IAM), exemplo! A analogia deveria ser a mesma.

Existem situações dentro da psiquiatria que requerem estratégias imediatas para salvaguardar a vida das pessoas, como após uma tentativa de suicídio e ideação suicida com planos e fatores agravadores. Luta antimanicomial em nosso país ganhou um viés extremamente ideológico, que vai além dos simples fechamento de manicômios que são lugares que de fato ocorria muito aviltamento de direitos. A lei 10216/2001 estabelece exatamente os direitos dos portadores de transtornos mentais e lá está contemplado as três possibilidades e formas de internações possíveis

Uma família sem grandes recursos financeiros tem condições de cuidar de uma pessoa com transtorno mental? Principalmente em surto?

Uma família simples sem grandes recursos financeiros tem condições de cuidar se for bem orientada e se existir um serviço ambulatorial adequado com possibilidades de retaguarda hospitalar assegurada. Acho que a questão que se tem hoje claramente de forma crescente é “uma psiquiatria dos ricos e outra para os pobres”. Isto nos remete a repensar os modelos assistenciais públicos que estavam vigentes até então. Com a nova política nacional sancionada em final do primeiro semestre deste ano de 2019 começamos novamente a vislumbrar possibilidades de renovação e ampliação das redes de assistência pública para aqueles que precisam de tratamento psiquiátrico na rede.

O cuidador da pessoa com problema mental também precisa de tratamento?

O stress e /ou esgotamento e/ou adoecimento mental do cuidador precisa de cuidados. O que ocorre é que cuidar do outro pode ser uma tarefa muito difícil, que requer também um cuidado adequado para que esta pessoa cuidadora não perca a sua própria identidade, não sinta que sua vida ” foi roubada” pelos cuidados prestados ao outro membro da família e cabe por adoecer também neste processo de cuidar do outro. Porque de fato é tarefa que exige dedicação, amor, um certo grau de altruísmo e, sobretudo, paciência e informação.  Muitos cuidadores não dão conta de suportar toda esta carga e acabam também precisando sim de tratamento.

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