Poemas também brotam em árvores

Raquel Santana (*)

Poesia nunca foi o meu forte na escrita, mas admiro demais os poetas. Alinhar as palavras sem sentido, de modo que façam, é para poucos. Eu me derreto diante de um poema bem escrito. E tenho minha lista dos preferidos, entre eles a paranaense Helena Kolody , o gaúcho Mário Quintana e o preferido de todos, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Todos, obviamente já mortos, mas mais vivos do que nunca em seus versos que tanto amo.

Vim de um lugar que já deu ao mundo grandes escritores, o mais conhecido – e ainda na ativa – é o acadêmico Ignácio de Loyola Brandão. Trabalhei num jornal na cidade em que ele era colunista de um caderno que eu editava e adorava ligar semanalmente para falar de trabalho com ele. Um cara simples, que atendia ele mesmo o telefone. Loyola também era cronista do Estadão e para entender a força de suas palavras, vou resumir uma historinha famosa na região.

Ao lado de Araraquara, cidade do escritor, tem um distrito chamado Bueno de Andrada. O local se resume a uma rua, uma estação de trem e um pequeno comércio local. Mas um dia Loyola passou pelo distrito e com fome, parou num pequeno armazém para comer uma coxinha. Não só se apaixonou pelo salgado, como escreveu sua crônica dominical falando sobre o assunto. Todo mundo leu e quis ir experimentar.

As “Coxinhas Douradas de Bueno” atualmente são uma potência. O pequeno armazém hoje ocupa um quarteirão. Aos domingos, a fila é quilométrica e não existe programa melhor na região do que ir comer uma coxinha sentada na praça que fica em frente. O poder da palavra. Uma crônica acabou movimentando a economia de uma localidade. As coxinhas de Bueno viraram franquia e são referência de negócio. O distrito cresceu e hoje até existe um movimento para a sua emancipação.

Lembrei do Loyola e dessa história nesta semana por causa de um amigo poeta e compositor, o Ademir Assunção, para nós conhecido como Pinduca, que o encontrou em São Paulo, cidade onde ambos residem. Estudamos, eu e Pinduca, Comunicação na Uel. Por sermos conterrâneos, isso nos aproximou. Em um post no Facebook, ele relata sua admiração pelo escritor e seu encontro com ele num bar. Ele chama Araraquara de Macondo, numa clara alusão à aldeia, relatada por Gabriel García Márquez em “Cem anos de Solidão”.

Pois foi em Macondo que numas férias encontrei meu amigo Pinduca pendurando poemas de sua lavra em árvores da praça da igreja matriz. Ponto de referência na cidade, a igreja é famosa pois diz a lenda que ela nunca será terminada pois em seu porão vive uma serpente . E não é que a igreja vive em obras intermináveis há mais de meio século? Culpa da serpente.

Acompanhada de uma prima, ajudamos meu amigo na árdua tarefa de pendurar poesia nas árvores, morrendo de medo da polícia nos pegar. Mas como Macondo é tranquila, não só penduramos como recebemos ajuda de várias pessoas. Antes de fixar os papéis, que meu amigo havia impresso cuidadosamente, tinha que ler os poemas. Acabou virando uma grande performance coletiva. Só de imaginar o dia amanhecendo e as pessoas chegando para a missa e se deparando com os papéis nas árvores, foi emocionante.

Poemas pendurados, partimos para uma pizzaria em que minha prima tomou conta do karaokê a noite toda. Não tivemos forças para conferir se as pessoas colheram as poesias que brotaram nas árvores naquela noite. Macondo nunca mais foi a mesma.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

Foto: Pixabay

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