Os presentes que não cabem em caixas

Raquel Santana (*)

Nessa época de Natal e de trocas de presentes, me vêm na lembrança os inúmeros que já dei e ganhei. Da infância, o mais lembrado e aguardado foi uma boneca Susi, a “Barbie brasileira “, lançada em 1966, quando eu tinha apenas cinco anos . Mas só fui ganhá-la anos depois, quando já era uma pré adolescente. Lembro de ter feito todo um enxoval para ela, tudo arrumado e guardado na gaveta do guarda-roupa junto com um sabonete Lux.

Na minha cidade não tinha um grande comércio de brinquedos, então fomos para a cidade vizinha. Apesar de já ser grande nessa época, sonhei com a Susi feito aquela menina de cinco anos de quando ela foi lançada. Não dormi naquela noite, esperando dar o horário do primeiro ônibus que me levaria de encontro ao presente tão esperado. Treinei naquela boneca todos os cuidados que um dia, certamente, teria com minha filha.

Caçula de quatro, meus irmãos com as idades acima de mim eram meninos. Cresci num ambiente de brincadeiras como queimada, betse e puladas de corda. E muito futebol, já que morávamos em frente ao campinho da cidade, cujo nome homenageia um tio por parte de mãe. Foi desse mesmo campinho que emergimos, os quatro, depois de um temporal, com rubéola. Minha mãe quase enlouqueceu. Teve um surto na cidade e a doença veio fraca, pois havíamos nos vacinado. Lembro de um vestido vermelho maior do que eu, simpatia para a doença “estourar”.

Em tempos de vaca magra, nas datas festivas, geralmente ganhávamos “lembrancinhas“. Mas no dia da Susi, minha mãe também me deu um jogo de “Uni Pino”, o primo pobre do Lego. Construí castelos, carros e cidades imaginárias. Também da infância, lembro da boneca “dorminhoca”, uma verdadeira febre na minha cidade. A boneca surgiu junto com os mascates que vendiam colcha de chenile. E o brinde era uma boneca. Cara feita em borracha e corpo no mesmo chenile da colcha. Feita para dormir de bruços na colcha em cima da cama, tinha uma touca na cabeça. Não teve uma menina da cidade que não sonhou com uma. A minha era vermelha.

Apesar de lembrar de todos os presentes que ganhei, não me lembro que fim levaram. Não guardei nenhum. Também já presenteei muito. Adoro, principalmente com objetos pouco convencionais. Mas pouco convencional foi o “presente” dado aos calouros de comunicação da minha turma da Uel. Talvez esse tenha sido o jeito mais bizarro de ter conhecido pessoas na vida. Não sei como, entrei numa caixa de papelão e, de sacanagem, os meninos fecharam, carregaram e me colocaram em cima de uma mesa, na sala de aula dos calouros. Não tive escolha a não ser sair da caixa glamourosa, sob aplausos. Foi assim que fui “apresentada” àquelas que seriam minhas futuras companheiras na Casa Verde. Não consigo entender como aceitaram morar com uma pessoa que saiu literalmente fora da caixa! Mas essa já é outra história.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Coleção Ana Caldato, print Youtube

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *