O Tigre Branco: bom, bom mesmo

Em ritmo de “agora vai” com a chegada das primeiras doses de vacinas contra o vírus corona, entramos em mais um fim de semana dentro de casa, aguardando a vez na fila. Para descansar e relaxar, nada melhor que um bom, bom mesmo, filme na TV.

A Netflix, com olho gordo nas premiações, vem investindo pesado em filmes e séries excelentes, mas que nem sempre agradam ao grande público. Mas, desta vez o streaming conseguiu unir o útil ao agradável, lançando esta semana o filme O Tigre Branco, sucesso de crítica e público fora do Brasil.

Com produção indiana e diálogos em inglês, a película é dirigida por Ramin Bahrani (99 casas – 2014 – imperdível)), e conta a história de um motorista indiano astuto e ambicioso, capaz de fazer qualquer coisa para conquistar sua liberdade financeira. Se surgiu na sua mente o filme de Danny Boyle “Quem quer ser Milionário?” (2008), não é por acaso, a trama por vezes nos remete a isto.

Mas O Tigre Branco apresenta uma visão muito mais realista, mostrando o âmago da cultura indiana, deixando de lado as sessões de ioga, os incensos, as roupas coloridas, escancarando o sistema social de castas, onde os dalits, intocáveis, são os excluídos, são os que realizam os afazeres impuros para as outras castas, tais como limpar excrementos ou lidar com cadáveres. A fotografia cinza e melancólica se une perfeitamente à trama.

E este é o grande trunfo do filme, seu centro é a mentalidade dos indianos de classe baixa que pensam, agem e acreditam que nasceram para servir os de classe alta, numa relação quase sadomasoquista de subserviência psicológica. E esta classe baixa é a maioria da população indiana. O filme também discute os vários níveis de corrupção que corroem o país (surgiu na sua mente o nome de outro país?) e de como, apesar de não haver oficialmente a divisão de castas desde 1947, ainda há um abismo entre alguns ricos e milhões de pobres.

Eis que surge um tigre branco, aos poucos o personagem central consegue desconstruir em si este aspecto corrosivo da personalidade, percebendo que pode um dia comandar, investir, empreender, ter sucesso, consegue libertar-se desta subserviência psicológica.

Fique em casa, não fure a fila da vacina e dê um “up” em sua autoestima assistindo a este filme.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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