O cabelo é meu e uso como quiser!

Como se não bastasse se apropriar de vários elementos de África e ainda se sentirem ofendidos quando apontamos os problemas disso, agora a branquitude quer dizer como devemos usar nosso cabelo: crespo, liso, com peruca, loiro.

Há mais ou menos duas semanas, a cantora Iza saiu em defesa da ex-BBB Camilla de Lucas. O motivo? A sociedade resolveu implicar com a moça por conta dela usar cabelos lisos e loiros. A alegação é que ela estaria tirando a legitimidade da luta negra por não usar o cabelo em sua forma natural. E, por conta disso, Camilla começou a receber comentários odiosos nas redes sociais e cheios de amargura, de gente que nem se quer sabe como é complicado crescer em um país que demoniza seu cabelo, tratando-o como ruim, feio, sem maciez, desarrumado. E que agora, também, resolveu dizer como devemos usá-lo. Faça- me o favor. Esse tipo de assunto me deixa irritadíssima, pois mais uma vez temos a branquitude querendo falar como devemos agir.

Se eles usam nossos turbantes e vamos explicar que isso é apropriação cultural, por exemplo, meu Deus, nossa! Cria-se um clima de tensão. Mas é comum que tirem – ou tentem tirar – de nós, mulheres negras, as coisas que fomos conquistando ao longo da história, como, por exemplo, assumirmos nosso cabelo cacheado, crespo, black pelas ruas, usá-lo assim nos ambientes sociais, empresariais, mas isso não descredibiliza, no meu ponto de vista, o fato de ter mulheres que alisam os seus cabelos. E por isso elas serão menos negras? Ou não têm crédito para falar das coisas da negritude?

Em minha casa, somos em três irmãs negras. Só eu assumi meu cabelo natural, minhas irmãs não. Então, pela lógica, minhas irmãs não podem falar das coisas voltadas à questão racial? Entender-se enquanto negra é um processo de construção e desconstrução. Isso leva tempo e nem todas vão chegar no mesmo ponto da trajetória.

Cada pessoa tem uma vivência, cada pessoa tem seus atravessamentos ideológicos que irão contribuir para construção do ser social. E nem todos irão agir da mesma maneira. Vou dar um exemplo: toda mulher cristã evangélica é igual? Com cabelos longos e com o uso de saia como acessório indispensável? Não, né! Logo, por que toda mulher negra precisa usar o cabelo crespo?

Lutamos e ainda estamos lutando pelo direito de fazermos qualquer coisa e não sermos julgadas, menosprezadas, inferiorizadas. Mas é aquilo. Andamos dois passos e lá vem a dívida histórica nos lembrar que não será assim tão fácil.

A questão do cabelo para a mulher negra é muito ampla. Eu alisava meus cabelos até os 30 anos para me sentir aceita socialmente, para conquistar bons postos de trabalho, para ter homens por perto. É uma lógica eurocêntrica do liso, arrumado, bonito.

Hoje, já com meu cabelo natural, fico pensando, sim, que a qualquer momento eu serei atingida pelo dívida histórica do racismo, com comentários sobre o volume do meu cabelo, a aparência, que ele está desalinhado. Não é uma luta fácil, gente, pois edificamos os castelos, mas o vento forte tenta tirar a estabilidade dele a todo momento.

E somos feitos de coragem, mas também emoção e sentimentos. Deixem-nos em paz! Deixem que as mulheres negras assumam o protagonismo que quiserem de suas vidas: seja usando cabelo natural, seja usando cabelo liso, loiro, seja usando a cabeça raspada. Há tantos problemas sociais envolvendo o racismo no Brasil que precisam ser trabalhados e mudados, e vocês aí preocupados com o cabelo que vamos usar amanhã.

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Pixabay

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