O Adeus

Por Cassiano Russo, professor de Filosofia

Dois amigos se encontram na estação de trem.

– Desisto disso tudo. Vou voltar para minha cidade – afirma o poeta.

– Desde quando você tomou essa decisão? – questiona o amigo do poeta.

– Não sei. Mas há algum tempo sinto saudade de casa. E esta cidade não é mais para mim – sentencia o homem de letras.

– E como serão as coisas? Quero dizer do que você vai viver? Vai abandonar a editora? Os fãs? O brilho de seu talento?

– Já abandonei essa vida faz tempo. Estou com a alma oca. Todas as exigências desse mundo civilizado mataram meu espírito. Já não tenho mais inspiração. Escrevo como um autômato. Não, meu caro amigo, não posso viver uma mentira. Tenho dinheiro o suficiente para comprar um sítio lá no interior. De lá não pretendo sair mais.

– Mas você sabe como é difícil chegar aonde você chegou? Ainda mais fazendo poesia num país como esse?

– Sei, sim.

– E você vai deixar tudo isso para trás?

– É hora de voltar no tempo – sentencia o homem de letras.

– Bom, a decisão é sua, meu amigo. Você fará muita falta aqui na capital. Sentiremos saudade.

– Sinto saudade também.

.Os dois amigos trocam um aperto de mãos e se abraçam. O trem já está de partida. O poeta adentra o vagão, acomoda sua mala e senta em sua poltrona perto da janela. Faz um sinal de tchau para o amigo com o chapéu.

O amigo ainda grita:

– O que fará em sua terra, poeta?

– Cultivarei verdades! – grita o beletrista da janela, a cabeça para fora.

E lá se foi mais um gênio, para nunca mais voltar.

Foto: Pixabay

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