Nana Caymmi, precisava de tudo isso? Hein?!

Expressiva intérprete da MPB lança tributo maravilhoso a Tito Madi e achincalha grandes nomes da MPB, time do qual faz parte. É possível separar a intérprete das suas posições ideológicas?

Antônio Mariano Júnior

Equipe O Londrinense

Com cacófato e tudo: da boca dela saíram tantas coisas que…orra, Nana Caymmi!! Parabéns, voltou com tudo. Ganhou fãs da hora; alguns sequer sabem da sua imensidão artística. Muitos não têm um disco seu na prateleira.

Nas redes sociais, um conhecido saudou sua “lucidez” por defender o seu presidente -o dele também. Muitos se decepcionaram não só pela postura política, mas pelas barbaridades disparadas no ventilador, em entrevista. Um show de desaforos e, inclusive, de intimidade desnecessária. Volto ao assunto.

Tributo a Tito Madi, maravilhoso

Ontem à noite, digitei no YouTube, como não quem-não-quer-nada-querendo-sim: Nana Caymmi canta Tito Madi. E…e… e… deu até gagueira ao saber que todas as faixas do projeto, recém-lançado pela gravadora Biscoito Fino, estão disponibilizadas.  Ouvi duas vezes, seguidamente. Ouvirei mais. Não farei download.

Onze faixas. Nana revê obras de Tito Madi (1929-2018), precursor da Bossa Nova, com seu canto quente e à beira da dramaticidade, sempre a serviço do rigor estético. É preciso acuidade de sentidos para não reduzi-la a uma intérprete cool ou intimista.

Aos 78 anos de idade e com mais de cinco décadas de trajetória artística, Nana comove após dez anos sem lançamento solo. Graças a Deus você voltou (samba canção, quase bolero) e Canção dos olhos tristes (piano com intenções jazzísticas) batem de frente. Atravessam os sentidos.

Há beleza também em canções conhecidas como Cansei de ilusões e Chove lá fora. Delicioso dueto com o Dori Caymmi, responsável pelos arranjos do disco, juntamente com Cristóvão Bastos, em Balanço Zona Sul

Nana Caymmi canta Tito Madi carece não de resenhas críticas.  Nossos ídolos ainda são os mesmos.  Fazem o que bem entender, como convém aos sagrados. No canto, Nana é sagrada.

“Credito de confiança”?  Ah, não!

Em  entrevista de divulgação do novo disco, Nana Caymmi pediu, ao ser indagada sobre política, um “crédito de confiança” ao presidente Jair Bolsonaro, em quem votou.

Achincalhou Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil (com quem foi casada, aliás), e os chamou de “c… do p…do Lula”. Sobrou para a sobrinha Alice Caymmi, uma das gratas vozes da atual música brasileira. De Qualidade. Criticou as netas que foram ao show do pagodeiro Belo.

O link:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/nana-caymmi-ataca-chico-gil-e-caetano-e-nao-quer-netas-em-show-de-pagode.shtml

Foi achincalhada nas redes sociais por suas declarações.  Foi desrespeitosa, prepotente, amarga ao falar de grandes nomes da MPB com ódio e intolerância. Sempre desrespeitou seus colegas de ofício, gratuitamente– chegou a classificar Elis Regina, por exemplo, de “comedora de capim”.

Temperamento agressivo, posicionamento político conservador. Nesta altura do campeonato, foi a única artista a defender um governo à beira de uma pirambeira – cadê os sertanejos? Isso não minimiza o rancor destilado.

É possível separar um grande artista e suas convicções ideológicas? No caso de Nana, sim. Ao menos para mim, sim. Já as opiniões públicas da cidadã Dinahir Tostes Caymmi não merecem filtros, não acrescentam nada. Essa aí não me represena.

Cansei de ilusões

A falta de grana é uma b#%@*&!  Há tempos não compro CDs e DVDs por conta do aperto. Gosto de projetos musicais físicos. A lista é imensa.

O mais recente sonho de consumo era o DVD De Santo Amaro a Xerém, de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, que ficou na promessa. Quantos dias seguidos liguei na portaria perguntando se havia chegado. Deixa quieto, viu?!

Nana Caymmi canta Tito Madi, mais um projeto físico a ser adquirido quando a situação financeira do cacete melhorar. Isso vai depender daquele senhor eleito presidente da República resolver, finalmente, trabalhar para melhorar a situação do Brasil.

Fácil falar dos descaminhos do PT e não apresentar um “projetinho” para, ao menos, atenuar o desemprego e contornar minimamente a crise econômica. Ninguém come armas de fogo.

Como diz a o título de uma canção de Tito Madi, cantada magistralmente por Nana Caymmi: Cansei de ilusões. 

(*) As opiniões emitidas no texto não refletem, necessariamente, a linha editorial de O Londrinense.

Fotos: Lívio Campos/Divulgação

Balanço Zona Sul (Tito Madi) – Nana e Dori Caymmi

Faixa disponibilizada no YouTube

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