Na longa estrada da vida

Raquel Santana (*)

A necessidade faz a gente cometer loucuras. Além da pouca grana, pegar um ônibus para ir para a universidade era um tanto complicado, pois nossa casa ficava fora da rota. Então tinha que pegar dois coletivos e o sistema não era integrado. O jeito mais prático e econômica era pegar carona no Zerão, coisa comum na época. Era esticar o dedo e lá tinha uma alma caridosa para te dar um lugar no possante. Tinha até umas caronas meio fixas, de colegas de turma.

Uma em particular era bem, digamos, sexista. O colega em questão, loiro e bem aparentado, se dava o direito de escolher quem colocar dentro do seu possante Fusca verde oliva. Parava e apontava para as meninas que ele queria levar. Eu nem esperava, entrava no carro porque afinal, éramos colegas. As lourinhas sempre ocupavam o banco da frente. Ele nunca se deu bem. Fato.

Hoje em dia eu jamais cogitaria pegar carona. Morro de medo. Tenho medo de andar até com os aplicativos. Sempre que vou sozinha, dou um jeito de ter alguém conectado comigo o tempo todo e deixo isso bem claro para o motorista. A gente ouve cada história. Mas os tempos eram outros. Tínhamos o hábito de ir, inclusive para outras cidades, de carona.

Plaquinha com o destino nas mãos, dedinho em riste e lá íamos nós. Sempre em dupla ou trio. Na década de 80, era usual andar de carona. Uma vez peguei uma bastante inusitada com uma amiga de infância. A distância entre Araraquara e Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo, é de apenas 30 kms. Perdemos o ônibus e fomos para a estrada. Não demorou muito e parou um carro conversível. Embarcamos. Dois tipos bem exóticos ocupavam os bancos da frente. E as duas caipiras se achando no banco de trás daquele carro sem capô e ainda por cima, dourado!

Começamos a conversar e aos poucos fui prestando atenção nas figuras. Os dois estavam cobertos de ouro. Era anel, pulseiras, correntes. Sim, pegamos carona com a dupla Milionário & José Rico. Foram uns lordes com a gente. Até colocaram uma fita com as músicas deles pra gente ouvir no caminho. Cidade do interior tem essas vantagens. A gente ouvia muita “moda de viola” naquela época. Sertanejo raiz.

Mas a odisseia com as caronas terminou num dia chuvoso, na volta de um feriado. A Casa Verde em peso foi para Pirajuí, também no interior de São Paulo. Na ida, tudo bem. Balada, festa, risadas e muita, muita comilança. O problema foi na volta. O céu resolveu cair bem na metade do caminho. Como estávamos em muita gente, nos dividimos.

No trevo de uma cidade que não me lembro qual era, apareceram uns moleques de bicicleta e mexeram com a gente. A chuva torrencial e ninguém parava para nos socorrer. Pânico total, teve gente que caiu no choro, de medo. Enquanto o assédio era apenas verbal, tudo sob controle. Mas um dos garotos resolveu mexer com uma de nós. Não deu outra. Partimos para a cima dos moleques, e dali direto para a rodoviária.

Ensopados e mortos de fome , subimos num Viação Garcia direto para Londrina. Fomos em pé (naquela época podia) nos fundos do ônibus, pois era uma volta de feriado e não tinha mais lugar. Lembro do banheiro da rodoviária e das alpargatas ensopadas. A chuva foi tanta que nem as roupas da mala sobreviveram intactas.

Mas como nunca saíamos de barriga – nem de mochila vazia – de Pirajuí, alguém lembrou que tinha comida na bagagem. Molhados, sujos, mas felizes, atacamos os tupperwares com uma colher que até hoje não sei de onde saiu. Nos fundos do ônibus, ninguém entendeu também de onde saiu aquele bando de trogloditas famintos. Comemos todo o bobó que estava na bagagem, sentados ao lado do motor quentinho do ônibus . Foi a melhor viagem de volta para casa.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Pixabay

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