Marrecos, cágados e paixões

Raquel Santana (*)

Toda casa que se preze, tem que ter um animal de estimação. Na nossa república teve de tudo. Quando se junta gente tão adversa num lugar só, não se espera outra coisa. De gatos a cágados. De periquito australiano a marreco selvagem, a Casa Verde era uma Arca de Noé tupiniquim. Os gatos eram os mais populares. Passaram tantos pela nossa casa, que perdi as contas. Mas não é a história deles que vou contar aqui e sim, a do cágado Crovinho e do marreco Vigorelli.

Tanta gente morando junto, é natural que o roll de amizades fosse bem diversificado. Sempre tinha um amigo que apresentava outro amigo e assim por diante. Foi através de um deles que conhecemos a Gi. Sapata assumida, Gisele se encantou por uma de nós e, não satisfeita de nos cobrir de mimos como doces e comidinhas gostosas, um dia ela apareceu com um cágado de presente. Pronto, Clóvis Jurandir passou a ser o novo morador da nossa república.

Arrumamos uma bacia com água, algumas pedras e Crovinho, como ficou conhecido, viveu feliz e faceiro com a gente um semestre inteiro. Gisele tinha uma desculpa para ir em casa todos os dias. Ingênuas que éramos, nem desconfiamos. Até a moça abrir seu coração. Não teve jeito. A paixão continuou platônica até ela desistir. Crovinho era o símbolo daquele amor não correspondido.

Estávamos nós felizes com nosso pet de estimação macho até alguém ir em casa, virar Cróvis Jurandir de barriga para cima e decretar: Crovinho era Crovinha. Sim, era uma fêmea. Mais uma numa casa cheia de mulheres. Não mudamos o nome, Cróvis Jurandir será eterno. Enquanto estávamos em aula, tudo certo. Mas daí chegaram as férias. O que fazer com Crovinho?

Bem naquele ano, minha família foi conhecer Londrina. Mãe, irmãos, cunhado, sobrinhos. A criançada ficou louca pelo cágado. Passaram longos dias de verão fazendo do animal companheiro de várias brincadeiras. Chegou a hora de ir embora e foi um berreiro total. Eu também ia voltar para minha cidade e Crovinho não tinha para onde ir. A bordo de um Passat azul metálico, quatro crianças, dois adultos e Crovinho viajaram felizes os mais de 600 quilômetros que separam as duas cidades. A existência de Crovinho na Casa Verde foi tão fulgaz quanto a paixão da nossa amiga.

O outro animal de estimação era meu e foi achado por um amigo na beira de uma estradinha. A mãe havia sido atropelada e a ninhada estava correndo o mesmo perigo. Nunca tinha visto bicho mais fofo. Um marreco selvagem bebê. Quando chegou, ele bicava insistentemente minha mão. Parecia uma máquina de costura, daí o nome. Ficou poucos dias. Só deu tempo de tirar algumas fotos.

Com medo dos gatos, quando saía trancava a ave num quartinho de casa. Um dia saí e quando voltei, ele não estava mais lá. Revirei tudo. Nada. Nem uma pena. Nem um bico. Nem uma perninha. Nenhum vestígio. Não havia uma brecha, nenhum lugar por onde ele pudesse escapar. Perguntei na vizinhança, pros amigos, nada. Esse é um dos mistérios que não vou resolver nessa vida. Aonde será que foi parar o marreco Vigorelli?

Foto: Acervo Pessoal

(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

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