Haicais e grilos na geladeira

Raquel Santana (*)

Haicai é um tipo de poema curto de origem japonesa. O casal paranaense Paulo Leminski e Alice Ruiz é um bom exemplo da produção haicaniana no país, mas pouca gente conheceu o seu Kimura, poeta londrinense praticamente desconhecido nessas paragens, mas que um dia entrou para o livro que reúne os expoentes da modalidade entre os cem maiores poetas do gênero. E claro que fui conferir para uma reportagem.

Seu Kimura morava numa casa na avenida JK, na mesma quadra do extinto Julipop (que ficava na esquina da JK com a Rua Goiás, antes de duplicação dessa). Fui lá, bati um papo com o velhinho, fiz a matéria, publiquei e não sei por que cargas d’água, cai nas graças do japonês. Entre outras coisas, ele me contou que tinha um grupo de poetas que se reunia na casa dele, para escrever. Pedi para ele me convidar para a reunião, pois queria conhecê-los. Uma tarde toca o telefone da redação e do outro lado seu Kimura me diz, com seu sotaque carregado: “venha cá hoje à noite flor rara de Japão vai abrir e vamos fazer poesia para ela”. Quem resiste à um convite desses?

Noite de verão, um calor desgraçado, lá fui eu para a residência do poeta, já cansada, direto do trabalho. Realmente não sabia o que esperar. Na real, não tinha a menor ideia do que ia rolar. Na minha cabeça, eles estariam reunidos numa mesa, escrevendo. Ledo engano. Vivi naquela noite quente de verão, uma das experiências mais loucas da minha vida.

Chegando lá, a primeira cena que me deparo, em plena hora do rush na avenida: em um banco em frente à pequena casa que misturava alvenaria e madeira, quatro senhores sentados em silêncio com um bloco e caneta nas mãos, diante da flor mais linda e fedida que já vi. Tratava-se da Flor Cadáver, rara, que floresce por apenas 24 horas. Era a primeira vez que florescia.

Seu Kimura, na época com 85 anos, era o mais jovem da turma. Os outros tinham de 90 anos pra cima. Todos magros, sentados completamente eretos, indiferentes ao cheiro de carniça. Contaram depois que há dez anos vinham tentando cultivar a planta, muito sensível ao calor local.

Para não atrapalhar a inspiração dos poetas, a senhora Kimura me levou para dentro de casa. Na cozinha, uma mesa enorme exibia vários pratos da culinária japonesa, na época completamente desconhecida pra mim (e que hoje amo). Falante, a pequena e franzina senhora me fez experimentar de tudo um pouco.

Mas a surpresa maior estava escondida na geladeira e não era comida. Lá pelas tantas, a senhora tira um tabuleiro enorme da prateleira e coloca na mesa. Dentro um bom tanto de areia. E a senhora se põe a explicar. Eram ovos que os grilos colocaram no verão anterior.

No Japão, é comum a criação dos insetos. Os orientais gostam de ouvir o som. Faz parte da tradição. E lá estava bem na minha frente, um tabuleiro cheio de ovos prontos pra eclodirem no verão londrinense. Um luxo traduzido em haicais pelo grupo e guardado em minha memória para sempre.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Pixabay

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