Guerra

Nilson Monteiro

O Dr. Guerra, José da Silva Guerra, foi uma figura especial da história em minha terra natal. Comunista, nunca abriu mão de seus princípios mesmo quando, por várias vezes, apanhou da Policia até cuspir pedaços de sangue.

Fez parte de um grupo de arrecadação de alimentos e de roupas para os militantes do Partido Comunista e os posseiros conflagrados na Guerra de Porecatu, no final dos anos 1940, expondo-se aos perigos da repressão.

Certa feita, em uma caçada policial aos comunistas, fugiu de Presidente Bernardes e escondeu-se nas casas de madeira das senhoras da noite, também conhecida como zona, em Santo Anastácio, cidade vizinha à Presidente Bernardes e que abrigava o maior núcleo de “vermelhos”, segundo a linguagem repressora, do interior de São Paulo.

Contam os de então que, aos pontapés, policiais derrubaram as portas de uma das casas, ameaçando suas ocupantes, e Guerra correu para o fundo do quintal, escondendo-se no mictório conhecido como “casinha”, com um grande buraco em meio às tábuas, onde as pessoas, em companhia de varejeiras, se livraram de suas “sujeiras” intestinais e urinárias.

Não teve saída, espremeu-se no espaço do buraco e deixou-se escorregar.

Ficou de merda até ao pescoço.

Um dos soldados cismou de ir à “casinha” onde o comunista chafurdava. Mijou farta e solenemente toda a cerveja que bebera, sem olhar para o buraco de bordas logo encharcadas e para a cabeça que ele molhava azedamente.

Guerra precisou tomar dezenas de banhos, depois de se livrar das merdas que o infectaram. “Se aquele filho-da-puta cagasse em cima de mim, eu o matava nem que fosse a dentadas”, dizia, com o ódio possível.

Humanista, visitava colônias, sítios e aguadas de Presidente Bernardes, consultando, gratuitamente, a quem de médico precisasse. Assim como à fila de desassistidos que se postavam em frente ao seu consultório. Certa feita, candidato à Câmara Municipal, não conseguiu mais do que uma dúzia de votos.

Nos anos 1960, consultei-me com o Guerra, devido à minha diabetes. Depois de tudo, ele olhou-me nos olhos e tascou: você tem que continuar tomando insulina, comer bifes bem fritos e salada de mamão verde.

Refuguei: a insulina e suas picadas doloridas, tudo bem. Mas, salada de mamão verde, nem morto.

Ele ajeitou seus óculos de aros finos à frente de seus olhos verdes e irrequietos, e trucou: então, coma maduro, mas bem vermelhinho.

Nada entendi na hora, mas meu pai, Florêncio, gargalhou. Eu só viria a entender tempos depois.

Ele adorava os vermelhinhos.

Foto: Pixabay

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