Grifes de alta costura abandonam de vez o calendário sazonal de desfiles

A Gucci está em destaque, há semanas, nos principais informes sobre Moda do planeta. Isso porque a grife decidiu usar o atual momento de crise para dar um up na marca e, de quebra, ditar novas tendências e formas de produzir e divulgar coleções, uma provável tentativa de se antecipar aos futuros acontecimentos.

A declaração mais recente feita pela equipe da label diz que a marca decidiu abandonar de vez a sazonalidade das coleções.

“Decidi construir um novo caminho longe das deadlines consolidadas na indústria e distante dessa performance excessiva que hoje não faz mais sentido”, dispara Alessandro Michele, designer e diretor criativo da Gucci, no Instagram da grife. “Vou abandonar o ritual desgastado das sazonalidades para recuperar uma nova cadência, mais próxima da minha maneira de me expressar.”

Outras marcas que anunciaram recentemente que farão o mesmo foram a Giorgio Armani e a marca de Dries Van Notem, conceituado designer belga. Outro ponto colocado por alguns deles, é que o atual calendário promove o desperdício e não é sustentável.

Já faz tempo que a indústria da Moda segue um calendário baseado nas estações do ano dividido em duas temporadas: primavera/verão e outono/inverno. O criador desse calendário foi Charles Worth, o pai da alta costura, que percebeu que a mudança de clima influenciava as pessoas na hora de comprar novas roupas (isso ainda no século XIX).

Charles Worth, estilista

As coleções geralmente são lançadas com um tema específico e o desenho das roupas e tecidos utilizados são pensados levando em consideração a estação em que serão lançadas e usadas – dois momentos diferentes. E, justamente por isso, essas coleções têm um “prazo de validade”, elas são feitas para durar um tempo, um momento. As temporadas sazonais ajudam a marcar esse tempo e manter o fluxo de criação de novas coleções em um curto espaço de tempo. Mais criações, mais roupas e, consequentemente, mais consumo.

Mudanças no atual calendário da Moda já são anunciada há algum tempo – com mais força, desde 2016. Com o surgimento e fortalecimento de uma nova geração de consumidores, não faz sentido manter as coisas como estão. Sem contar que esse calendário engessa – e muito – o potencial criativo dos designers.

Reprodução internet

Una isso ao fato de que o custo da produção das coleções, dos desfiles, de manutenção de estoque e liquidações é altíssimo e voilà: está aí, na minha opinião, a verdadeira razão dessa mudança anunciada justo agora: redução de custos e busca por um novo diferencial para as grifes.

Marcas de diversos outros segmentos, todos ligados à moda, já experimentam essa mudança em nome de filosofia e conceito. A gente tomou essa decisão e fez o mesmo na loja, ainda Bijorhca, em 2018, porque se deu conta que nossas joias, colecionáveis e atemporais, poderiam ser usadas em qualquer momento e estação. A gente também queria coleções que refletissem nossa marca conceitualmente, levando em consideração as principais tendências internacionais, mas sem deixar que elas interferissem demais na personalidade das nossas peças.

De toda forma, mais que um momento de reflexão, o atual momento tem se mostrado um momento de ação no mundo da Moda. Tudo o que está sendo dito agora já foi pensando antes. E vai sair na frente quem fizer primeiro. A Gucci entendeu bem isso e deve seguir no centro das atenções.

Foto principal: Divulgação/Gucci

Ana Paula Barcellos

Formada em História pela UEL, trabalhou 10 anos como escritora para blogs e sites sobre cultura e lazer. Atualmente, trabalha com marketing digital e pesquisa de tendências e, junto com Angela Diana, é proprietária da Rosita, marca de acessórios.

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