Diretas, volver

Já fui uma cara-pintada, daquelas de vestir camiseta e rabiscar a cara de verde e amarelo. Sim, as cores de nossa pátria já tiveram outro significado. Entre 1983 e 1984, um tsunami de manifestações se espalhou pelo país. Londrina não ficou de fora. Em abril de 84 estava marcada uma grande passeata na cidade, mais precisamente no segundo dia do mês.

Na UEL, os centros acadêmicos resolveram fazer um grande show, no gramado que ficava atrás do ginásio de esportes, um tipo de “esquenta” pré manifestação. Toda a universidade foi convocada e vários artistas locais se apresentaram. Nossa turma, como sempre engajada, foi ajudar na montagem do palco. Foi aí que começou uma sucessão de incidentes que só aconteciam com a gente. Não sei se a culpa era da extrema vontade que todo mundo tinha de se jogar na vida sem medo de ser feliz, ou marcação de touca, mesmo. Só sei que tinha coisa que só acontecia com a gente.

Então vamos à sucessão de micos. Como a UEL ficava longe de casa, saímos muitas horas antes do show, arrumados, todos nos trinques, prontos para a noite que prometia. Prontos pra balada, não seria necessário voltar pra casa. Naquela época emendar a tarde com a noite e muitas vezes com a aula da manhã seguinte, era fichinha para nós . Teve gente que colocou roupas e tênis novos, afinal era uma noite muito especial.

Com calças e All Star brancos, um must fashion da época, lá se foi um grande amigo nosso, pronto pra tudo. Só não estava pronto pra lata de tinta preta bem ali no chão do palco. Sim, ele chorou. Eu, só de rir. Pensa que perdeu a pose? Só perdeu foi a roupa nova, mesmo. Show ao ar livre de última hora, vocês sabem como é. Sem estrutura. Xixi? Só no banheiro do ginásio de esportes. Tarde quente, muita água e cerveja depois, bateu aquela vontade coletiva de ir ao banheiro.

Nessas alturas, o gramado já estava tomado e o show corria solto. E a preguiça de andar até o ginásio? E até ir e voltar, íamos perder parte das apresentações. Não tivemos dúvidas: atrás do palco seria perfeito e ninguém ia ver. Se os meninos estavam fazendo lá, por quê nós não? Rapidamente demos a volta e fomos para lá. A estratégia era a seguinte: enquanto uma abaixava, o resto fazia “cortininha“ para tapar a vista e garantir uma certa privacidade. Quem nunca? Essa estratégia sempre funciona pras meninas

Felizes e aliviadas, voltamos ao nosso lugar. Foi quando nos demos conta de que a construção era suspensa. E todos estavam sentados no chão. Sim, minha gente, foi uma abundância. Um espetáculo. Um golden shower coletivo. Mijamos de costas para o público. Voltamos pro nosso lugar com cara de bunda pintada.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas uma eterna apaixonada por Londrina

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