Debaixo dos caracóis do meu cabelo

Raquel Santana (*)

Já contei anteriormente que usei uma vida toda meu cabelo curto. Quando era pequena, os piolhos da escola, aliados aos poucos produtos hidratantes na época, resultavam numa cabeleira cheia e armada. Capacetão mesmo. Eu, muito magra, não combinava muito com longas madeixas. Mas quando passei no vestibular, era época em que aquele corte Chitãozinho e Xororó estava na moda. No linguajar técnico dos salões, o famoso “pigmaleão”.

Meu cabelo descia em camadas, mais cheio em cima e desfiado embaixo. Em época em que o mercado só oferecia os Lux e Palmolives da vida, o único creme que abaixava o cabeção era o Neutrogena. Acho bom até hoje. Então, cabelo sempre foi um assunto complexo para mim por não gostar do meu. Ao longo da vida conclui que o corte curto era prático e chic, optei por ele. E quando decidia deixar crescer, a opção era alisar com química.

Em 2015 o sonho de cabelo longo e liso finalmente pode ser realizado. Tenho tanto cabelo que neste ano resolvi deixar crescer para doar, já que a química me permitia um crescimento sem armar. Quando atingi os 20 centímetros ideais para doação fui a um salão cortar. Foram oito mechas totalizando 480 gramas. Mandei via Correios para os voluntários do Cabeloalegria, que confeccionam perucas para crianças em tratamento contra o câncer. Deve ter dado para fazer praticamente uma peruca. Recomendo a todos que façam o mesmo, enche o coração da gente.

No último ano resolvi deixar crescer novamente, dessa vez assumindo os cachos e os brancos. Essa semana fui ao salão quando me foi recomendado não pintar. E lembrei de uma certa ocasião em que, encantada com a conversa com meu cabeleireiro, o Zezito, que mantém seu salão em Londrina até hoje, me passou. Apostando na minha ousadia, Zezito me convenceu a fazer algumas mechas naquele rabicó que o tal “pigmaleão” ostenta. Jurou que ia ficar o máximo.

Lá fui eu acompanhada com um dos meninos da república. Lavou, cortou e foi pro tingimento. Explicou que iria descolorir algumas mechas do rabicó e depois iria fazer a coloração. Com papel crepom. Cor de rosa. E não me deixou olhar no espelho. Serviço terminado, espelhos a postos e tcharam! Fiquei parecendo uma arara. Chorei tanto que Zezito, que naquela noite tinha um casamento para ir, ficou até às 23 horas tingindo meu cabelo de preto azulado.

Manchou as mãos de tinta e a cada cinco minutos atendia a mulher puta da vida que ele não chegava. Até hoje não sei se depois foi para a festa, ou não. Eu, no entanto, passei uns bons anos sendo chamada de “arara, arara”, com a pessoa fazendo voz de ave. E choro de rir. Pois é, debaixo dos caracóis dos meus cabelos, muita história para contar.

(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

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