De portas e coração abertos

Raquel Santana (*)

Em tempos em que a segurança em casa é motivo de grande preocupação para todos os que vivem em grandes cidades (e para os das pequenas também ), lembro de um tempo em que Londrina vivia dias calmos na região central, local aonde morei nos anos 80.

As portas e portões da Casa Verde, que ficava na esquina da rua Paranaguá com rua Tupi, estavam sempre abertas, ao ponto termos uma única cópia das chaves. Era um entra e sai diário tão intenso, que tornava impossível manter as portas cerradas. Um tempo em que as amizades eram mantidas pessoalmente, e os amigos dos amigos eram sempre bem-vindos.

Por conta disso, chegar em casa era sempre uma surpresa. Nunca se sabia o que se iria encontrar. Podia ser um ator ou músico famoso, até alguém que ninguém conhecia. A sala e a cozinha eram os espaços democráticos da casa. A única e fundamental regra era respeitar o quarto do outro. Dito isso, não era raro chegar em casa e encontrar uma festa rolando nos espaços coletivos. Quem não estava a fim, se retirava para seu canto e ponto.

Mesmo com tanto rodízio de gente, tínhamos alguns visitantes “fixos”. E não era raro ter algum hóspede temporário, geralmente alguém abrigado enquanto não arrumava um lugar fixo para morar. O espírito solidário sempre foi regra entre os republicanos londrinenses, e com a gente não foi diferente.

Nesse entra e sai de casa, claro que aconteciam algumas coisas inusitadas. Foram muitas, mas me lembro de uma especificamente. Numa certa madrugada, cheguei já meio zureta e dei de cara com um ator global transando com certa atriz do Proteu na sala de casa. Nenhum dos dois morava lá, claro. A atriz era vizinha e praticamente uma criança. Dei um sonoro “boa noite “ e fui para o meu canto.

No outro dia, todo mundo fingiu que não aconteceu nada. Até hoje não consigo olhar para o ator, que está no elenco das novelas globais, sem lembrar da bunda dele. E pelo jeito ele continua gostando das novinhas.

A única vez que achei que a segurança de casa estava ameaçada, foi a vez que, ao chegar em casa com um amigo, passei um susto daqueles. Estacionado na porta, um camburão. Dele, descem vários policiais fortemente armados com um cão. Corri achando que o pior tinha acontecido. Na minha cabeça, alguém tinha invadido a casa e matado todo mundo. Não era nada disso.

O vizinho achou que alguém tinha entrado na casa dele e chamou a PM. Os policiais acreditavam que os bandidos tinham pulado para o nosso quintal. Levei a maior bronca, pois segundo o policial, poderia ter levado um tiro. Mas o mais engraçado era quando chegavam as férias. A casa ia esvaziando aos poucos e quem ia embora por último é que ficava responsável pelas chaves. Então, era preciso arrumar um esquema para a volta.

Agora eu pergunto: porque diabos será que nunca fizemos cópias?

(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

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