Da terra se fez, à terra retorna

Em 1998, apresentei na Galeria Banestado a exposição “Da terra se fez… À terra retorna”. O tema era vasto e demorei quatro anos para desenvolver todas as obras que compunham essa série.

É estranho como, mesmo sem querer, vivemos de opostos… Alguns anos antes, eu estava pintando anjos e tudo o que era ligado a eles: o lado espiritual do ser humano, etc. Na sequência, surgiu a TERRA, o material, a terra roxa (que na verdade é vermelha e teve origem na palavra “rosso”, em italiano) de Londrina, a cidade em que nasci.

Para quem não sabe, esse tipo de terra só existe no continente africano e na América do Sul e é extremamente fértil, podendo se transformar em tinta também (duvido que algum londrinense não tenha uma roupa branca ou um tênis branco que tenha ficado encardido por causa dessa terra!). Aliás, fazer tinta da terra é fácil: peneire e misture com verniz acrílico… Tinta que dura para sempre, fica a dica!

Nas obras, eu falo exatamente dos opostos: da vida e morte, de situações e coisas que se complementam, dos sentimentos que nenhum ser humano quer ter, como o ódio. E como é necessário passar por ela para sentir o alívio de uma vida de paz, como a maioria quer ter uma vida, fugindo da ideia da morte, mas uma não existe sem a outra.

Na época, muita gente vinha me perguntar sobre o que eu estava “falando”, querendo saber sem nem sequer olhar para a obra direito. Era complicado explicar que eu “já tinha dito”, que estava LÁ, era só olhar e VER.

Por causa dessa exposição, cheguei à conclusão que as pessoas querem tudo mastigável e a arte verdadeira não se presta a esse papel, ela ensina a pensar! A sentir! A pessoa precisa REFLETIR.

Não faz mal não entender de cara, não dói ter que pensar sobre algo, é isso que faz o ser humano evoluir. Não arranca pedaço ler uma poesia longa ou ficar sem mexer no celular uma hora para assistir uma peça de teatro, um filme, um documentário.

Não existe nada de errado em questionar o que achamos não estar certo. Não entendeu? Está na frente da obra e está complicado? Pergunte para si mesmo o que você sente …Leia um livro, pesquise…É bom, saudável, principalmente para o cérebro. A arte ajuda em vários tratamentos de transtorno psiquiátricos justamente por alcançar o inconsciente e trazer á tona, medos, dúvidas, questões pessoais. Se isso não acontece, não tem como saber o que fazer… Se a doença, seja ela qual for, não se manifesta, não tem como buscar uma cura.

Na verdade, a responsabilidade sobre isso é um pouco dos artistas, pois viver fora da caixa imposta pela sociedade traz uma grande solidão…E muitos, por quererem ser aceitos, fazem obras que precisam de um discurso, de uma fala, para que alguns entendam…Grandes obras, pessoalmente acredito, não precisam de explicações…ela existe e pronto!

Talvez, e só talvez mesmo, tenhamos que parar de “mastigar” textos, quadros, imagens para que as pessoas voltem de um mundo “walking dead”, de uma filosofia barata que tudo tem que ser “rápido, confortável e simples” e perceberem que isso não passa de ilusão. A vida não é assim e, muito menos, a morte ou a ideia dela, e que não adianta mudar o rumo, a arte tem que ser “sentida”!

Talvez, para alguns leitores seja um pouco estranho a maneira que eu falo da arte, mas estamos aqui tentando falar do principio de tudo, do porque a arte existe, aonde ela atua e do principal: o processo de criação. A arte nos ensina também à nos conhecermos e nos conectarmos com vários aspectos do mundo.

Boa tarde, pessoal! Uma boa e ótima e não tão simples vida (graças à deus!) a todos!!

Foto: Obra “if you stay”, de Angela Diana

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

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