Costureiras e “fazedores de moda” com pé vermelho: 41 anos de calças impecáveis com o Toninho Alfaiate

Subo a escada do Edifício Rádio Londrina, na Quintino Bocaiuva, entro pela porta da sala 4 e me apresento porque percebo que ele não se lembra de mim: “Ah, dos seus irmãos eu me lembro mais, né? Eles são bem magrinhos, mais parecidos. Seu irmão ainda vejo por aqui de vez em quando”. Seu Toninho, ou Toninho Alfaiate como ficou conhecido, é um costureiro de mão cheia da velha guarda aqui da cidade. 

Aos 66 anos, Antônio de Oliveira, o homem que veio de Cianorte em 1978 para exercer a profissão que já sabia que seria a sua desde criança, continua na ativa. Quando chego, ele está sentado à máquina – e com a mesma boa disposição de sempre. “Está fazendo o quê hoje?”, pergunto. “Uma calça, olha só, vou te mostrar… com o mesmo bolso traseiro que seu pai gostava!”

A parte traseira da calça é realmente idêntica às das calças que meu pai usava, todas elas costuradas pelas mãos do Toninho, seu alfaiate de 1986 até sua morte, em 2002. Meu pai só usava calça de alfaiataria sem bolsos laterais e com a barra mais aberta, lembrando uma boca de sino (meu pai era muito “anos 70”). As calças tinham corte impecável e eram vincadas – coisa da qual eu morria de ódio na adolescência porque quando minha mãe viajava quem passava as calças dele era eu.

Toninho ainda se lembra do meu pai e conserva a ficha com suas medidas – assim como de todos os clientes que já passaram por lá. Puxou o papel, que tem a letra do seu Aristeu, e explicou cada medida e como ele gostava das peças em seus mínimos detalhes.   

As últimas calças que meu pai encomendou para o Toninho, um ano antes de morrer, foram as mais bonitas que ele já teve. Uma, de um azul escuro muito lindo, sempre elogiava quando ele vestia; a outra, de brim azul escuro também. Meu pai nunca usava calça jeans, nunca. Mas quando comprou uma chácara no Limoeiro, comprou também brim na Chafic e levou para a Alfaiataria Modelo – ele jamais teria comprado calça jeans em loja.

Para disfarçar os olhos que marejavam, pergunto se ele sempre trabalhou ali, e ele me conta que começou no número 272 da Rua Guaranis, na Vila Casoni, em 1978 mesmo (e só foi para o centro em julho de 1982). Na Casoni, ele trabalhava até de madrugada – quando ouvia o trem passando – de tanto trabalho que tinha pra terminar. Não à toa ficou famoso no bairro como exímio “calceiro” – e eu considero as calças o maior símbolo do trabalho do Toninho, como uma assinatura.

Hoje, a quantidade de trabalho não é a mesma de alguns anos atrás, ele diz, mas a máquina segue ligada o dia todo até dar 18h. Além das roupas sob medida, Toninho também faz consertos em geral e seu número de telefone continua o mesmo, 3324-7538. Bate o olho rapidamente nas calças que estou vestindo (calças tipo alfaiataria, como não?) e diz que pode fazer calças pra mim também.

Vou saindo e me lembro de um modelo que tenho no armário, já muito desgastado pelo uso e do qual não me desfaço porque não encontro para comprar em lugar algum e não é o tipo que qualquer um faz. Aí me dou conta de que não apenas voltarei, mas voltarei em breve. Tudo indica que aqui começa uma tradição familiar…

Fotos: Ana Paula Barcellos

Ana Paula Barcellos

Formada em História pela UEL, trabalhou 10 anos como escritora para blogs e sites sobre cultura e lazer. Atualmente, trabalha com marketing digital e pesquisa de tendências e, junto com Angela Diana, é proprietária da Rosita, marca de acessórios. 

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