Cidade Invisível: afunde-se no sofá e divirta-se

Na semana pós-carnaval a folia não acabou, afinal, parece que vivemos em uma eterna festa de foliões. Tudo é permitido, você vive como quiser, fazendo suas próprias leis sem se preocupar com o próximo. Podemos inclusive atacar verbalmente instituições que zelam pelo bem coletivo. Oremos pelas grades.

E nesta semana pós-carnaval sem ressaca, vamos escrever sobre a série brasileira Cidade Invisível (Netflix), dirigida por Carlos Saldanha (Touro Ferdinando – 2017, animação indicada ao Oscar). A trama apresenta lendas do folclore brasileiro em sete episódios. O ator Marco Pigossi (Tidelands – 2018) incorpora o detetive ambiental Eric que se envolve em uma investigação sobre um assassinato e acaba descobrindo um mundo habitado por entidades míticas que são geralmente invisíveis aos reles mortais.

Essas lendas folclóricas são conhecidas amplamente nas zonas rurais do país, mas a direção consegue criar um suspense policial de fácil consumo em streaming, adaptando as lendas ao gosto do grande público urbano. Com formato curto, roteiro simples e timing rápido, somos rapidamente conquistados pela TV, apesar de alguns furos e atalhos.

O grande mérito da série é a mensagem subliminar sobre a importância da cultura, das raízes no cotidiano. Sem raízes somos derrubados com o primeiro ventinho, intelectualmente, politicamente, fisicamente, é só olhar e conferir nossa situação atual. Cidade Invisível consegue ser comercial, fazendo uma salada saborosa de fácil e rápida digestão com folclore e cultura, levantando um debate sobre as mudanças causadas pelo “progresso” e, consequentemente, o esquecimento da ancestralidade.

Carlos Saldanha, por ter esta função de adaptação do rural para o urbano e as limitações dentro da produção, infelizmente acaba sendo excludente, deixando muitas lendas de muitas regiões do Brasil fora do contexto. E em tempos de mimimi, a série já tem críticas ferrenhas por parte de entidades que defendem os índios. Com repercussão em todas as redes sociais, o debate aberto pela série desembocou na questão do porquê uma série que trata de cultura indígena não ter índios em seu elenco, ou pelo menos consultores que conheçam melhor o assunto.

Furos de roteiro e mimimis à parte, Cidade Invisível é uma ótima série. Afunde no sofá e divirta-se.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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