Câmara ignora crise e quer dobrar gratificação de gerentes

Com aumento de 91% na gratificação por gerência, folha salarial terá mais despesas em momento de crise e desemprego. Dinheiro que sobra no orçamento deveria voltar à Prefeitura

Loriane Comelli
Redação O LONDRINENSE

Está tramitando na Câmara Municipal de Londrina o projeto de lei 205/2018 que aumenta a gratificação de 13 servidores que ocupam cargos de gerência, passando os valores de R$ 1.308,40 para R$ 2.500, um reajuste de 91%. Somados ao salário que cada um deles recebe, os valores podem de R$ 12 mil por mês. Mais que um secretário municipal recebe, com salário base de R$ 10.513,00.

De autoria da então Mesa Executiva, composta por Ailton Nantes (PP), atual presidente; Filipe Barros (PSL), que renunciou para assumir uma vaga como deputado federal; Eduardo Tominaga (PR) e João Martins (PSL), projeto causará impacto anual de R$ 225 mil.

Como argumento para defender a proposta, Nantes disse que o valor anterior é incompatível com o mercado e que os servidores ocupam cargos de grande responsabilidade, como fiscalização de contratos. “São servidores efetivos responsáveis por departamentos, fazem análise de valor pagos por outros órgãos públicos, fazem a coordenação da atividade da equipe, estão à disposição da direção da Casa além da jornada de trabalho e, principalmente, fazem fiscalização de contrato, o que é uma responsabilidade muito grande”, defendeu.

O presidente, no entanto, não lembrou que, na iniciativa privada, salários de gerentes estão bem abaixo do que é pago pela Câmara. Uma consulta ao site www.salario.com.br mostra que o salário médio de um gerente de processos é de R$ 4.700,00. O teto é de R$ 7.103,00.

Nantes disse que ainda apresentará a proposta aos novos integrantes da Mesa: Felipe Prochet (PSD), Daniele Ziober (PP) e Amauri Cardoso (PSDB). Se for aprovada, a lei, com impacto mensal de R$ 18,9 mil, seria retroativa a 1º de janeiro de 2019.

O presidente do Legislativo disse que o projeto foi apresentado após indicação da Controladoria e com parecer favorável da Procuradoria, uma vez que há inclusive “dificuldade” de encontrar servidores que aceitem o cargo de gerente em razão da baixa gratificação. “Estivemos fazendo essa comparação com outros cargos em outras instâncias públicas e esse valor pago pela Câmara está bem aquém. Seria uma atualização do valor.”

Nantes disse que a gratificação paga pela prefeitura aos servidores que ocupam cargos de gerência foi um dos alvos da comparação. Ao ser questionado sobre o valor, disse que “não especificamos aqui porque a metodologia é diferente”. Em consulta ao Portal da Transparência da Prefeitura de Londrina, consta tabela na qual o valor da gratificação para gerentes de unidade é de R$ 1.308,40, mesmo valor pago hoje na Câmara. Mas, desde 2017, a Prefeitura não paga gratificações para quem atua na assessoria, direção ou coordenação das secretarias e órgãos.

Mesmo reconhecendo a crise nacional, Nantes defendeu o reajuste afirmando que o orçamento da Câmara comporta o impacto. Apesar de haver orçamento para suportar o benefício aos 13 servidores, legalmente o dinheiro não utilizado pelo Legislativo deveria retornar ao caixa da Prefeitura para ser usado em benefício de toda a sociedade.

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2 comentários em “Câmara ignora crise e quer dobrar gratificação de gerentes

  • 15 de fevereiro de 2019 em 10:56
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    Se não debatermos e realizarmos uma reforma política radical, profunda, não sairemos do atoleiro em que nos encontramos…

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  • 15 de fevereiro de 2019 em 12:41
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    Essa proposta é irresponsável e não condizente com o momento econômico e político da cidade. O que os políticos propõem com relação aos seus salários e de seus próximos, vêm contra ao que pregam para o cidadão. Afinal, a quem eles representam? Tem que haver uma reforma política, não podemos aceitar mais esse tipo de atitude. Isso é uma constante em todo o país.

    Resposta

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