Borat: Fita de Cinema Seguinte

Todos sabemos que muitos bons atores mergulham e se perdem no próprio personagem que estão interpretando, os method actors, engordando ou emagrecendo severamente, mudando voz, postura, etc. Alguns exigem ser chamados pelo nome do personagem no set de filmagens, não desincorporando a atuação em nenhum momento antes do fim da produção, como Daniel Day-Lewis (Sangue Negro – 2007).

Mas sem dúvidas, o mais radical method actor do momento é Sacha Baron Cohen, ele não emagrece, não engorda, não muda o sotaque ou a postura, mas não abandona seu personagem Borat nem por um segundo, mesmo que esteja correndo perigo de morte durante as filmagens.

Inesquecível o Borat lançado em 2006. Em muitas salas de cinema pelo mundo, metade da plateia abandonava a exibição nos seus primeiros 15 minutos. Sacha Baron Cohen interpretava o repórter do Cazaquistão, Borat. Seguindo o estilo mockumentary, uma espécie de documentário falso onde o personagem central interage com pessoas reais em situações reais, Borat interagia com pessoas reais que expunham seus piores preconceitos, racismo, antissemitismo, homofobia, e por aí vai ladeira abaixo.

Acredita-se que o sucesso estrondoso do primeiro Borat deve-se a vários fatores; humor negro, escatologia, perde a vida mas não perde a piada, enfim, os preconceitos eram internalizados. E em pleno final de 2020, Cohen se sentiu motivado a vestir novamente seu terninho cinza e malacafento e incorporar Borat novamente por razões óbvias, toda a podridão saiu das telas e faz parte do nosso cotidiano, nas diferentes facetas da extrema-direita, ao governo dos Estados Unidos, do Brasil, e de todos os aliados. Não são somente os gays que estão saindo mais do armário, homofóbicos, antissemitas, racistas, escrotos, também estão.

Em sua continuação, lançada na Amazon Prime esta semana, Borat: Fita de Cinema Seguinte, novamente o caos reina do começo ao fim. Com participação merecida, até a figura grotesca do presidente brasileiro não fica de fora. E Cohen, novamente, faz o que tem que fazer no timing exato, às vésperas das eleições americanas.

Novamente podemos apreciar Cohen, sem um roteiro pré-definido, mergulhar nas situações mais bizarras e instaurar o caos pleno. Claro que esta continuação não tem o mesmo brilhantismo que o primeiro filme, mas nenhuma continuação tem, perde-se o tom da novidade, do revolucionário. Mas tudo funciona muito bem, no tempo certo e no local exato. Imperdível.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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