Bastidores de moda e chão de fábrica: a beleza e os perrengues que muitas vezes não se vê

Trabalhando em confecções e com moda acumulei algumas experiências e histórias que falam dos bastidores do grande palco que são as vitrines, passarelas, catálogos etc. Coisas como a vez que compramos um tecido que era medonho do lado direito e incrível do avesso e produzimos vestidos maravilhosos com ele ou a vez que, para cobrir um defeito, fizemos um travetão em linha marcante e o modelo foi um sucesso de vendas!

E é aqui que começa a história de verdade. Um erro que se tornou o atrativo diferencial e o avesso que se tornou o direito: estamos falando sobre perspectivas.

A Beleza na Moda é sobre entrar em tantas facções de costura que você perde a conta e, ao final do dia, entende em quantos lares e em quantas famílias você esteve e o quanto aquelas pessoas estão envolvidas e dedicadas no fazer um vestido, uma blusinha, uma camisa e o quanto aquelas costureiras se orgulham dessa habilidade…

É pegar uma peça feita de forma impecável, às vezes madrugada adentro, e dizer: “Nossa, ficou lindo!”  E a costureira sorrir de forma tímida, mas confiante que fez um bom trabalho…  Sempre que pego uma peça de roupa, olho e fico imaginando a história que tem naquele avesso: “Será que quem fez essa peça fez com carinho? Com pesar, com medo , com pressão, com lagrimas (literal) ou sorrisos?”

Ah, sim, sabe o tão famoso trabalho escravo? Ele não acontece apenas em grandes marcas, nem apenas de forma tão brutal, tão na cara. O abuso no trabalho feito pelo setor de moda é muito real e está muito próximo de todos nós, como por exemplo, na romantização de situações como a que narrei acima.

“Feitas madrugada adentro”… E nem sempre  as costureiras  escutam um “tá lindo”, e mesmo se escutarem elogio não paga conta e o que elas recebem é sempre muito baixo em relação ao preço final da peça e que, no sempre das vezes, elas nunca vão poder comprar a “própria obra”.

A Beleza da Moda está na União de uma equipe de confecção para cumprir metas e a feiura está no não reconhecimento de horas extras e cansaços para cumprir essas metas… No cumprimento que se torna apenas uma obrigação custe o que custar…

A Beleza está no espírito colaborativo, de ver como a parte do processo do colega se alinha com o seu e como algumas pessoas são tão incríveis que mesmo apuradas dizem: COMO POSSO AJUDAR?

E a tristeza está naquele que vendo o apuro se antecipa para apontar falhas, cobrar o prazo e ainda dizer que a parte dele esta feita e que não tem “nada com aquilo”… Como pessoalmente já ouvi: quando o que prevalece é a política do TSR (TIRAR O SEU DA RETA)

A Beleza está em uma fábrica que tenta criar situações positivas: intervalinhos extras, um lanche especial, premiações, falas de incentivo…

A feiura está em uma fábrica onde a rotatividade é o comum, onde se afirmam que colaboradores gostam da “adrenalina” da pressão das metas!

A Beleza está no estilista, gerente, proprietário que está sempre no chão da fábrica que fica suado, cheio de linha, tira os óculos para olhar nos olhos e dá risada de uma ideia que ficou horrível…

A Feiura é a pessoa se isolar em uma sala e se comunicar agindo como a Miranda do filme “O Diabo Veste Prada”, olhando, quem julga de nível hierárquico ou estirpe inferior, por cima dos óculos…

A Beleza da Moda está no conceito das coleções e a feiura está no entender que nem todos compreendem ou tem acesso ao conceito.

Esse jogo da beleza x feiura dá uma lista muito extensa.

O Vestir-se quando pensamos em tudo isso, quando vivenciamos ou somos empáticos a essas problematizações torna-se um ato mais consciente:

Gostar da Moda é ser aquele travetão: Não para esconder o defeito,  e sim para validar que ele está ali e não pode ser esquecido e que, ao mesmo tempo, ainda afirma há beleza que se salve”….

Fotos: Getty Image

Esther Eugenia Martins

Graduada em Moda pela UEL e Técnica em segurança do trabalho pelo Senac. Atuo no Mercado de Moda há 10 anos com ênfase em PCP e Desenvolvimento. Pesquisadora da contracultura, underground e estereótipos, amo as danças árabes, música, meditação, plantas e a bicharada. Minhas referências estéticas preferidas são a Art Nouveau e a Art Déco.  

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