As bruxas e as baleias de Guaratuba

Sempre digo que se eu quisesse uma profissão monótona, ia ser bancária. Por isso escolhi o jornalismo. E apesar de ter passado por todos os cargos e funções da categoria, escolhi ser repórter. Chegar na redação e nunca ter um dia igual ao outro, não tem preço. Pior que tenho uma amiga que escolheu o caminho inverso. Formou-se em jornalismo e hoje é bancária. Escolhas.

Foi em uma tarde chuvosa de 1992 que cheguei à redação e fui pautada para ir à Guaratuba para acompanhar o Corpo de Bombeiros nas buscas do corpo do menino Evandro Ramos Caetano, morto num suposto ritual de magia, num dos crimes mais bárbaros do país e que causou comoção nacional. A imprensa do país todo estava na cidade e o trabalho seria matéria de capa no dia seguinte. Muita responsabilidade.

Chegando lá, as buscas do dia já tinham sido encerradas, devido ao mau tempo. E foi nessa tarde que deixei de ser filha da pauta, como se diz no jargão jornalístico e voltei sim para a redação com a matéria de capa do dia seguinte, mas não tinha a menor relação com o que tinha ido cobrir. Lembrei dessa história desde que a notícia voltou às manchetes nesta semana e antes de contar minha história, vou relembrar um dos crimes e julgamento mais hediondos da Justiça brasileira.

O “Caso Evandro”, como ficou conhecido, causou muita repercussão. Desconfiava-se que o assassinato do menino tinha conotação religiosa e nele estavam envolvidos a mulher e a filha de Aldo Abage, prefeito na época.

O menino Evandro Ramos Caetano, que em 1992 tinha 6 anos, desapareceu em 6 de abril daquele ano. Seu corpo foi encontrado cinco dias depois, em um estado que chocou o país. Estava num matagal da cidade, sem vários órgãos, com mãos e pés amputados, e vísceras e coração arrancadas.

A promotoria pública do Paraná acusou Beatriz Cordeiro Abagge e sua mãe, Celina Abagge, como mentoras do sequestro e morte da criança, no mais longo julgamento da história do país (foram 34 dias). Elas supostamente faziam parte de um grupo chamado Lus (Lineamento Universal Superior), ligado à ufologia e ao espiritismo. Ficaram conhecidas como “as bruxas de Guaratuba”.

Nos últimos dias a história voltou a público graças à prisão de Fabrício Queiroz, na casa do advogado Frederick Wassef. O advogado, que hoje tem entre os seus clientes o presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio, era um dos integrantes do Lus e em 1992 também estava em Guaratuba. Na ocasião, chegou a ter sua prisão preventiva decretada.

A decisão se deu durante as investigações do desaparecimento de outra criança, Leandro Bossi, também em Guaratuba, no mesmo ano, dois meses antes de Evandro. À época, Wassef estava hospedado no hotel Vila Real – local de trabalho da mãe de Leandro.

Os investigadores chegaram ao Lus e a Wassef com base no depoimento de três pessoas presas pelo desaparecimento de Evandro Ramos. Os suspeitos declararam que também tinham sequestrado Leandro e entregue o menino a uma mulher estrangeira. A mulher, a argentina Valentina de Andrade, era tida como mentora do Lus e era próxima a Wassef.

Mas os investigadores não encontraram ligação entre o grupo Lus e o desaparecimento de Leandro Bossi nem de Evandro Ramos. E por isso o advogado foi absolvido. Mas as mulheres não se livraram do julgamento. Em 2011, Beatriz foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão, 13 anos depois do primeiro julgamento. Em 2016, o Tribunal de Justiça do Paraná revisou o caso e concedeu perdão de pena para Beatriz Abagge. Para Celina o crime prescreveu por idade.

Voltando ao dia que fui à Guaratuba atrás dessa história, lembro que o dia estava chuvoso e chegamos sem saber a localização exata das buscas pelos bombeiros. Até chegar na cidade, já era quase o final do dia. Fomos até a sede da corporação e lá nos informaram que tinham sido suspensas devido ao mau tempo.

Diante da minha decepção, um dos soldados disse: mas você não vai embora sem uma notícia. E vi de sua boca sair uma frase que mais parecia uma canção: tem uma baleia nadando com seu filhote próximo à praia, estamos monitorando. Eu e o fotógrafo que me acompanhava, quase enfartamos. Mas como chegar até os animais? perguntei. O bombeiro disse que era só pedir para um pescador me levar. E por sorte eles estavam lá.

Voltaram mais cedo por causa da chuva. Em minutos estávamos dentro de uma traineira, e não demorou para acharmos o mais lindo animal que tive a sorte de ver em seu habitat natural. Lá estavam mãe e filhote, nadando livremente. Chegamos tão próximos aos animais que lembro perfeitamente dos olhos dela me observando. Por sua vez, o barco balançava tanto que achei que íamos naufragar. Mas não senti medo diante daquela mãe Jubarte. E tivemos a sorte dela esguichar água bem diante de nossos olhos e câmera.

No dia seguinte, a foto estampou meia capa do jornal. E no lugar de uma notícia triste, voltei com uma história que sempre encanta. Nesse dia, deixei de ser filha da pauta diante daquela mãe de 16 metros e 30 mil quilos, que se deixou ser observada de volta enquanto dançava na água com seu filhote, sem desconfiar da maldade humana em terra.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto:  Programa de Pesquisas de Mamíferos Marinhos da Universidade de Hawai’i

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