As amigas que a infância me deu

Não sei o que seria de nós nesses tempos sombrios em que vivemos, se não fosse a internet e suas redes sociais para nos comunicarmos. E depois do grupo da família, agora também estou no das amigas de infância. O ano começou com o resgate de varias lembranças, aquelas que nos animam para seguir em frente – e de alguma uma forma – nos lembram quem já fomos.

Mantenho amizades que, acredito, começaram na barriga de nossas mães. Nossas progenitoras já eram amigas antes de engravidar e como é de praxe em cidade pequena, se conheciam.

Tive a mesma turma na escola desde o jardim de infância. Acredito que a primeira sala de aula é a minha lembrança mais remota. Tenho flashs de memória de lá. E lembro de chorar muito. Minha mãe, sempre maravilhosa, quis saber o porquê de tanto chororô. Eu respondi que tinha medo de que ela morresse. Normal para a idade. Ela me garantiu que não, apesar de descumprir a promessa na minha vida adulta.

A sala do jardim de infância ficava ao pé da escada que dava para as salas de aula das turmas dos mais velhos Do outro lado, o barracão onde era servida a merenda. Amava a canja. No centro da escola o pátio, local em que todas as manhãs entoávamos os Hinos Nacional e a Bandeira. Nas datas festivas, eu declamava poesias lá do alto. Até hoje sinto o frio na barriga e o amargo na boca. Mas fechava os olhos e mandava ver. Depois de decorar o texto em casa e fazer quem estivesse ao alcance de plateia.

A gente fazia fila para entrar, usava uniforme e sentava sempre no mesmo lugar. Eu não sentava na frente, as carteiras destinadas aos cdfs, mas também não era da turma do fundão, chegada numa bagunça. Ficava no meião, local em que se pode mudar de turma a hora que quiser. Se for pra prestar atenção na aula, a lousa e o mestre estão perto. E para ir para a bagunça, é só se virar. Tem ocasião em que ser do centro é uma boa.

Para quem é jovem, a convivência estudantil é maravilhosa. Para quem não é, também. Segui com a mesma turma até o cursinho pré-vestibular. Depois cada um foi para um canto. Casamos e tivemos filhos. Perdemos o contato. Até que uma das meninas – somos em oito – reuniu todas novamente num grupo. E lá estamos nós, matando saudades de um tempo em que, vacina a gente tomava na escola. E que nadar na piscina era o grande diversão do dia. Agora estamos esperando a pandemia acabar para nos reunirmos novamente. Já estou preparando a caixa de lenços.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Gabby K no Pexels

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