Alegria de pobre dura pouco

Raquel Santana (*)

Tinha quase oito anos quando o homem pisou pela primeira vez na lua. Vi na televisão da sala de casa, em preto e branco, numa sala apinhada de gente. Não sei como, mas éramos umas das poucas famílias a ter televisão em 1968. As imagens, na época, eram em preto e branco e lembro que meu irmão mais velho chegou um dia em casa, com uma folha de celofane que deixava a imagem em furta cor. E o eterno bombril na antena garantia a perfeição da imagem, que a vizinhança apinhada na sala, não conseguia acreditar.

Lembro perfeitamente do cheiro de suor, dos rostos nos janelões de curiosos que não conseguiram um lugar vip na sala. Tenho certeza que tem gente que morreu não acreditando naquele dia. Que foi mesmo inacreditável! Depois daquele acontecimento, olhar para o céu – e principalmente para a lua – tomou outro significado para mim. Ainda mais que, naquela época, era um céu absolutamente livre de poluição, lá naquele interiorzão de meu Deus. Desde então, olhar para cima tornou-se um hábito, dividido e compartilhado com muitos amigos.

Londrina tem um dos céus mais lindos que já vi. Quantas vezes deitamos no chão para nos refrescarmos no final dos dias quentes de verão no terraço da Casa Verde, nossa república na cidade. E lá ficávamos rindo e sonhando com o futuro, enquanto tentávamos adivinhar as constelações. Também tivemos a sorte de ter amigos de todas as tribos, atores, músicos, jornalistas, gente que fez a diferença em nossas vidas.

No meio dessa Babel de gente havia um certo amigo rico, gay e que vivia no armário diante da sociedade londrinense. Ele adorava se exibir. Levava uísque e champanhe nas nossas festas, vestia-se super bem. Quando digo que vivia no armário é porquê a pessoa, inclusive, foi casada e tinha filho. Não sei por onde anda, espero que tenha saído. Tudo isso para contar que foi ele que, em 1986, levou um telescópio para a gente ver o cometa Halley do terraço de casa.

Esse terraço ficava em cima da garagem, que tinha ainda um quarto e um banheiro em anexo, local que abrigava os meninos da Casa Verde. A construção, além de ser elevada, tinha uma copa da árvore da rua que encobria a luz do poste. Perfeito para namorar e, claro, ver estrelas. A chegada do telescópio foi aguardada com ansiedade e, como não poderia deixar de ser, virou motivo para juntar os amigos.

Final de semana, céu limpo como só o de Londrina sabe ser, foi montado o telescópio. Para quem viveu a expectativa X realidade da visão do cometa vai entender. Um dos assuntos mais comentados na época, o Halley só é visível na terra a cada 74 anos. É o único possível de ser visto duas vezes pela mesma geração e ainda a olho nu! Merecia uma festa. Porém não foi bem assim.

Para decepção geral da galera, o Halley não passou de um risquinho no céu a olho nu. E no telescópio, também. Bom mesmo naquela noite foi conseguir ver São Jorge e seu cavalo bem de pertinho na lua. Aquela mesma que o homem havia pisado na tv da sala de casa. Mas como os finais de festa para mim sempre eram literais, o tal amigo rico quis fechar a noite com chave de ouro. Calor infernal, o que fazer em Londrina? Alguém sugeriu que uma piscina seria perfeito. Mas a gente não tinha piscina. Mas no motel tinha!

Seguimos eu, um amigo e mais o dono do telescópio com uma amiga japonesa que nunca tinha visto e que estava com ele, para a estrada. Suíte master, piscina e banheira com direito a sais e espuma de banho. Não lembro quem teve a ideia de colocar toda a espuma na banheira e ligar a hidromassagem. Entramos os quatro e viramos crianças. Foi um tal de fazer esculturas de espuma na cabeça um do outro e rir até perder o fôlego. Não gente, ninguém pegou ninguém.

Cansados e felizes, resolvemos tirar uma soneca. Sol alto na manhã, acordo assustada e chamo todo mundo. Algo muito errado tinha acontecido comigo. Desesperada e com muito custo consigo acordar todos. Com os olhos infeccionados e vermelhos descubro que todos nós tivemos alergia à espuma de banho. Alegria de pobre dura mesmo muito pouco.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

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2 comentários em “Alegria de pobre dura pouco

  • 22 de setembro de 2019 em 14:16
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    O nome do cometa é HALLEY, o harley nunca passou por aqui. Não consegui entender o que tem haver o cometa com o gay, o motel e os olhos vermelhos com, o fato de ser pobre. Acho que vou ter de ficar com os olhos vermelhos para entender o o texto, humm carinha!!!!!!!!!!!!!

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    • 23 de setembro de 2019 em 08:36
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      Luciano, apenas lamento sua não compreensão do texto. Quanto ao nome do cometa, espero que seu corretor nunca o deixe na mão. Mas já foi corrigido, obrigada por indicar o erro.
      Telma Elorza, editora.

      Resposta

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