Ai, que badalo! Voltei às paradas de sucesso: tenho uma perna atômica que me leva à lua!

Antônio Mariano Júnior

Especial para O Londrinense

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 •• Todo sistema solar sabe, mas sempre

tem um que… saca?

• Vamos lá.

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 •• Amputei o membro inferior esquerdo, em 2013.

• Utilizo prótese transtibial na perna esquerda.

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• É, perna mecânica… Pode ser.

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•• Tabagismo. Dois maços de cigarro por dia. Comia

até com farinha, rapadura e manteiga de garrafa.

• Problemas de circulação e… eu me efe-o-de-i.

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• É, tomei na tarraqueta… Pode ser.

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•• Pergunta constante:

– Você fumava cigarro?

– Não, Pedro Bó, fumava crack.

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•• Usava bermudas quando fui protetizado.

• Era um chuá por onde eu passava. 

• Apareci na TV; fiz selfies com quem nunca vi na vida.

• Praticamente um ídolo sertanejo.

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•• A criançada me cercava. No condomínio, muitos

batiam palminhas ou gritavam “ô” no portão.

• Queriam ver a prótese.

• Desfilei muito.

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•• Não emplaquei mais hit nenhum (graças a Deus),

• Os fãs desapareceram, tornei-me comum.

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•• Há coisa de uma semana e pouquinho…

• Voltei às paradas de sucesso no condomínio.

• Graças a uma menininha que falou assim:

–  Olha, o homem tem perna de cano.

– Eu tenho perna atômica, mocinha.

– É?

– Quando aperto esse botão vou voando até a lua.

– É?

– Ô…

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•• A prótese causa estranhezas em adultos.

• O diferente causa íntimos constrangimentos.

• Breves exemplos.

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•• Piscina de um clube social. Havia mais gente que água.

• Um silêncio do c#@%*& quando cheguei.

• Trocentos imersos; só nariz, olhos e o tampos

de cabeça fora d´água.

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•• Tirei vagarosamente a prótese. Sentei na

borda da piscina e… não aguentei:

– Quequifoi, hein? Qualé?  Viram a mãe de bobs?

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•• Bati palmas estaladas e ameacei:

– Se não voltarem a falar rapidinho eu arranco o short.

• A feira livre se restabeleceu.

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•• O engraçadinho do churrasco.

– Você faz canguru perneta? Kkkkkkkkkk e k

–  Faço sim, e você?

– Não… eu tenho as duas pernas…. kkkkkkkkkk e k

– É verdade que você faz frango assado? Kkkkkkkk e k

• Ficou brava a pilombeta.

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•• A pior de todas:

– É difícil ser paralítico?

– Repete!!

– Você era normal e agora tá assim, coitado.

– Cê tá falando sério? Mesmo?

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•• Levantei-me, a mesa de lata voou.

• Antes de ir embora, uma performance

à altura daquele ser desprezível.

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•• Doeu. Até não doer mais.

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•• Siimmm, episódios bacanas.

• Um dos mais significativos para mim.

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•• Fila do açougue de um hipermercado.

– Posso orar por você?

– Pode, sim.

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•• A funcionária com o avental ensanguentado,

veio até onde eu estava. Orou.

– Posso te dar um abraço?

– Mas eu estou toda cheia de sangue…

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•• Emocionado. Tocado. Para sempre.

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•• Ah, sim!!!

• A nova leva de crianças do condomínio, que

há uma semana quer saber da lua.

• Para onde vou com minha perna atômica.

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•• Cerca de dez (?) pequenos, com

idades entre 4 e 6 anos.

• O grupo vem crescendo, acho.

• Hoje pela manhã, seis olhinhos curiosos me saudaram.

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– Tio, você foi pra Lua, hoje?

– Fui, mas voltei rapidinho… Tá um sol na lua! Um calor!!

– É?

– Ô…

– O sol cabe na lua?

– Só de dia…

– Vai de noite, então.

– Você já foi no sol?

– Passei perto… muito quente, viu?

– É?

– Ô…

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• Querem saber da lua, do sol, do espaço sideral.

• Dos fatos que trago de onde nunca fui.

• Até eu acredito quando conto.

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•• Vou longe com a minha prótese.

• A imaginação nunca mancou comigo.

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•• Eis minha glória.

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•• Ou como diria a livre pensadora:

– Ai, que badalo!

Foto: Arquivo pessoal

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