A pegada “empoderadora” de Donatella Versace

Meio monstro, meio deusa, Medusa petrificava os homens que a olhavam nos olhos. Sua cabeça, na mitologia grega cortada por Perseu, virou amuleto contra o mal na Grécia Antiga e se tornou símbolo feminista nos 70. Atualmente, ele tem sido retomado como símbolo “empoderador”.

Protagonista de uma odisseia particular para manter a força de seu sobrenome, Donatella Versace, 63, personificação da Medusa com cabelos platinados, varreu as dúvidas sobre quão longe chegaria. É fácil relacionar a figura de Donatella com a do personagem fictício que é o logo da marca fundada por seu irmão Gianni, estilista morto em 1997 e centro da premiada série “O Assassinato de Gianni Versace” (FX).

Incompreendida pela indústria quando teve de assumir sozinha a direção criativa da etiqueta, Donatella teve sua cabeça colocada à prêmio pela onda conservadora do final dos 90. “No começo, tinha receio de chegar perto dos nossos arquivos ou usá-los para inspiração, porque tinha medo que dissessem ‘olha, ela está copiando o irmão’”, desabafa Donatella, em entrevista concedida este ano à BBC.

Seus medos eram justificados. Antes do tiro que matou Versace, ela era como um alter ego feminino do estilista, um manequim dos decotes, das fendas e das coxas à mostra. Na cadeira de chefe, era ou assumir o lado fatal da Medusa ou o outro, de emblema do feminismo no século 20. Sob críticas, preferiu a segunda opção. Desenhou novas formas, fazendo um jogo menos explícito de esconde e revela da pele e apostou alto no simbolismo da Medusa dourada, para que a mudança não devastasse a identidade da marca.

O Brasil, segundo ela, é um dos países que melhor se adequam ao estilo Versace de se vestir. “As brasileiras parecem sempre estar celebrando a vida por meio da roupa. Têm um estilo vibrante, sem remorso e poderoso”, disse.

A pele exposta seria outro ponto de convergência entre a moda oferecida pela grife e o guarda-roupas das clientes, que a julgar pelas lojas lotadas da marca na temporada de desfiles, gostaram do encurtamento dos vestidos. “Sempre houve uma sensualidade desinibida em nossas coleções, porque acredito que roupas não são apenas uma maneira de cobrir o corpo, mas de passar uma mensagem. Acho que o retorno do tamanho míni tem um significado diferente do passado. Vejo minhas roupas como armas, e minhas mulheres não dizem apenas ‘olhe para mim, sou sexy, dizem ‘olhe para mim, eu tenho algo a dizer.'” Esse discurso caiu como uma luva no movimento de liberação do corpo das passarelas internacionais no verão de 2019, que privilegia o “teor sexual” da moda.

Diga-se de passagem, a moda pode trazer não mais que o empoderamento “à la Beyoncè”; usar uma camiseta que diz “Feminista” favorece a quem, dá poder a quem? Grandes magazines e figuras públicas exploram a mensagem feminista reduzindo um movimento político inteiro e complexo a frases de efeito e individualismo.

Mas sim, bom ver mulheres ocupando cada vez mais espaços e mostrando que a sociedade precisa se acostumar, de uma vez por todas, a erguer o rosto para apreciar o trabalho poderoso de uma mulher, sob o risco de virar estátua de pedra.

Fotos: Divulgação

Carlos Fabian S. Jimenez

20 anos, pisciano e estudante de Design de Moda na Universidade Estadual de Londrina.

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