A onça, a gringa e a vergonha alheia

Raquel Santana (*)

Não sei como, mas certa vez minha mãe, que só falava português, fez amizade com uma alemã. Ao se aposentar, dona Therezinha foi morar em Santos, no litoral paulista. Além de morar na praia, minha mãe decidiu que iria ficar de papo pro ar e decidiu aproveitar a vida viajando. Em uma de suas voltas de Florianópolis, aonde foi visitar a neta, sentou-se ao lado da Maria Angélica, a germânica que tinha esse nome devido aos pais cristãos.

No longo percurso entre Floripa e São Paulo, a primeira etapa da viagem, usando dicionário, mímica e sabe-se mais lá mais o que, as duas se entenderam e fizeram amizade. E o lado árabe de minha mãe falou mais alto e não é que ela convidou Angélica para conhecer o litoral santista? E não é que a gringa aceitou?

Nesse meio tempo, chegaram as férias e lá fui eu para casa. Como a comunicação na época era escassa e cara, mandei recado no telefone da vizinha que estava chegando. Ao entrar em casa me deparo com uma mulher altíssima, de olhos azuis e cabelos castanhos, cuja beleza era de parar o trânsito. Gastei o pouco inglês que aprendi nas aulas da Fisk e também fiquei amiga da gringa.

Ela veio sem roteiro, disposta a conhecer o Brasil e o brasileiro. Chegou cheia de mistificação sobre o país. Sabe aquela ideia de que aqui é tudo mato e jacaré atravessa a rua? Pois é. Estava encantada. Convidei, e ela aceitou, para me visitar em Londrina antes de retornar à Alemanha. E num belo dia no início de um mês de agosto, chega para nos visitar na Casa Verde.

Gente, vocês não imaginam a comoção – e a série de vergonha alheia provocada pela chegada da moça. Descobri que Angélica era jogadora da seleção que correspondia ao seu estado, de basquete. Ah, jornalista vê pauta em tudo. Contei na redação que trabalhava na época e claro, ela virou notícia. Levei ela para ser entrevistada pelos colegas da editoria de esportes e fui trabalhar.

Depois vieram me contar que os coleguinhas, que sem saber falar inglês ou alemão, e na ânsia de se comunicar com aquele monumento, tascaram vários “Hi Hittler “, seguido do famoso gesto. Quem presenciou disse que não acreditou. Sem contar os comentários machistas, já que ela não falava português. Passei o resto da estada dela em Londrina pedindo desculpas. Se fosse hoje, nem sei o que teria feito. Mas acho que a Angélica nos perdoou.

Um de seus sonhos ao vir para o Brasil era conhecer o Pantanal. Com as finanças no fim, ela já havia se contentado em voltar para casa sem ver onças pintadas e jacarés. Mas não é que um amigo nosso, que tinha um amigo na embaixada em Brasília, descolou uma viagem para o Mato Grosso? E lá se foi minha amiga ver jacaré de perto no Pantanal. E na volta passou ainda pelo Rio de Janeiro.

Por anos trocamos – eu e minha mãe – cartas e postais com ela. Em português, pois voltou tão encantada pelo país que foi aprender a língua Com o passar dos anos perdemos o contato e até hoje me pergunto por onde ela anda. Qualquer dia vou pedir para um desses programas, tipo Caldeirão do Huck para a gente se encontrar. E mais uma vez quero pedir desculpas pelo vexame alheio.

(*) É jornalista em Curitba mas apaixonada por Londrina

Foto: Pixabay

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