A montanha-russa emocional sendo mãe de UTI

Ser mãe de UTI é exaustivo. Você junta medo, angústia, puerpério, seios machucados (porque uma das coisas mais importantes quando seu bebê está na UTI é tirar com bombinha ou manualmente o colostro, primeiro leite que desce que é rico em anticorpos. Uma verdadeira vacina natural para um bebê já está em situação delicada). Além disso você pode receber informações conflitantes porque o quadro do seu filho pode mudar entre o primeiro hemograma do dia e o último.

Biel estava em um aparelho que respirava por ele. Cheguei após a primeira madrugada esperando vê-lo sem aquele tubo, mas o médico informou que o aparelho foi tirado durante a madrugada e ele tinha parado de respirar. “Ele teve apneia, mãe! É super normal em prematuros”. Como assim “super normal?”. Eu fiquei horrorizada. Todos aqueles apitos e luzes e aparelhos estavam mantendo meu bebê vivo. Ser mãe de UTI dói demais – fisicamente e emocionalmente.

No final do terceiro dia, ele finalmente saiu do tubo. Estava em um aparelho apenas de oxigênio para não ficar cansadinho e tinha engordado poucos gramas. Fiquei tão feliz – felicidade contida, sem ser muito efusiva. A gente aprende rápido a respeitar as mães que estão sofrendo por seus pequenos. E aí, saindo do meu mundinho e conversando com outras mulheres, descobri um casal que estava muito aflito porque seu bebê estava há dias com uma infecção que não cedia, e por terem demorado a encontrar o foco de infecção um pedaço do intestino do bebê tinha necrosado. O bebê de nove dias teria que passar por uma cirurgia abdominal.

Enquanto a incubadora era levada pelo corredor, vi aqueles pais andando ao lado até o centro cirúrgico. Meu coração estava pesado e eu sentia um aperto na garganta mesmo aquele bebê não sendo meu. Se fosse o Biel, eu estaria em frangalhos. Achei aqueles pais fortes e entendi que, no fim, só resta ter forças. Não há o que fazer. Você fica totalmente impotente. Seu filho deveria estar em seus braços, mas ele está para ser aberto em uma mesa cirúrgica sem que você possa fazer nada para ajudar. É muito angustiante, para dizer o mínimo!

Ficamos ali, esperando notícias pelo bebezinho que tinha ido ao centro cirúrgico. Aquela sensação de alívio vergonhosa pairava sob os pais que tinham recebido boas notícias aquele dia. 

À noite, quando chego para ver Biel, o médico fala: “mãe! O hemograma do seu bebê deu alterado. Ele está com uma infecção e precisamos fazer um exame da medula para descartar meningite. Precisamos aguardar os resultados”. Eu só pensava no bebê com intestino necrosado. Eu senti alívio mais cedo por não ser o Biel. Agora só sentia medo.

Mas o antibiótico funcionou para o organismo do meu bebê e por isso durante os próximos dez dias ele terminou o período de antibiótico, normalizou a respiração, parou de ter apneias e aprendeu a sugar no seio. Aquele período tinha finalmente acabado e ele recebeu alta. 

Nesse tempo, um bebê veio a óbito. Foi uma das coisas mais tristes que vi acontecer durante meu curto período como mãe de UTI. Também conheci uma mãe guerreira de Tamarana, abandonada pelo pai do seu filho que nasceu com hidrocefalia e estava há seis meses internado na UTI. SEIS MESES! Aquela mãe acordava cedo, pegava ônibus, ficava o dia inteiro alternando entre os bancos duros da espera da Unidade Intensiva Neonatal e em pé, ao lado da incubadora da sua criança.

Ela ainda conseguia sorrir ao falar sobre ele, mostrar fotos e contar sobre a rotina que estava seguindo. Como o bebê seguia internado, ela não pôde voltar ao trabalho depois da licença maternidade de quatro meses, e foi demitida. Estava vivendo de seguro desemprego e falava que não sabia o que faria quando ele acabasse. Nem sempre ela tinha dinheiro para comer. Mas ela estava ali, todos os dias, o dia todo, sentada naquele banco para poder ver seu filho. Ela não tinha com quem revezar para ter uma folga. A rotina dela era literalmente apenas dentro das paredes daquele hospital. Dia após dia. Partiu meu coração. Ser mãe de UTI dói! 

Foto: Visual Hunt

Paula Barbosa Ocanha 

Jornalista, casada, trinta e poucos anos, dois filhos e apaixonada por educação infantil. Mesmo antes de casar, eu lia e me interessava por técnicas de educação, livros de pedagogia e questões sobre o desenvolvimento humano, principalmente na primeira infância. Com essa coluna, gostaria de relatar minhas experiências pessoais. E assim espero lhe ajudar, de alguma forma, a passar mais facilmente por essa linda (e assustadora) jornada da maternidade! Vem comigo e me siga também no Instagram @mamaepata

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