A lichia anã

Rogério Fischer (*)

Foi num sábado qualquer do começo deste século que conheci o Estádio Municipal Cacá Scolari, na zona sul de Londrina.  O nome, na verdade, não existe. É com ele que me refiro ao campo de futebol society que o Cacá construiu na casa dele, no Recanto do Salto, onde se reuniam gente do teatro, da música, jornalistas e desocupados em geral para maltratar a bola. Um colega insistiu para que eu integrasse a patota. Dava umas peladas bacanas, respeitosas, justificava o amigo. Além disso, após a refrega, quase sempre acendia-se a brasa para uma confraternização bacana e respeitosa.

Fazia uma cara que eu não jogava futebol. Havia operado o joelho direito duas vezes, ligamento cruzado anterior, e aos trinta e poucos anos já havia me resignado em fazer parte do time do Alam Brado, com medo de machucar de novo. Fui, então, para assistir – de chinelos, para não ter uma recaída. Naquele dia deu para formar dois times, mas, como sempre acontece em grupos pouco afeitos ao condicionamento físico, logo saiu um, esbaforido, saiu outro. E faltou gente para completar o sete contra sete. Imploraram. E lá fui eu. Descalço.

Gostei da experiência. Descalço, a sensação é que você fica mais “no chão”, corre menos riscos de torcer o joelho ou o tornozelo. E corre menos riscos, também, de uma fratura, porque só um louco pior que um eleitor de Bolsonaro vai pensar em entrar numa dividida com o Negão do Proteu ou o Wider do Dá Licença, por exemplo. Voltei outras vezes e joguei sempre descalço, ali, na boa, recebendo e distribuindo. Quando dei por mim, já arriscava lançamentos longos e umas sapatadas do meio de campo. Resumo da ópera, ainda que bufa: logo estava de chuteiras; havia me integrado definitivamente à trupe, inclusive levando aquele fardinho básico de brahma para a resenha coletiva.

Em um daqueles sábados, Cacá ofereceu a varanda principal porque, afinal, seria noite de brasa acesa. Lembro que Walter Tele se apossou da churrasqueira, com maestria. Enquanto beliscávamos umas castanhas e amendoins, alguém atirou na mesa uma sacola de lichias. Caramba, o que é isso?!? “Lichia! Experimenta.”

Não sabia nem descascar. Alguém me explicou. Tira-se a casca com a unha e daí surge uma coisa branca, muito branca, convidativa. Experimentei. Que troço bom, rapá. Timidamente, fui descascando uma, depois outra e, como ninguém parecia dar muita bola para a iguaria, certamente à espera do que viria da churrasqueira, chupei um monte de lichia. Dezenas. Deliciosas. Tinham vindo da fazenda dos Scolari, entre Arapongas e Sabáudia.

Daí, fiz o que sempre faço em situações assim: coloquei algumas sementes no bolso. Em casa, as guardei num pote de vidro, daqueles em que você coloca o cortador de unha, botões rebeldes, agulha e linha que tua mãe um dia levou, cartão de visita que você acha que um dia vai precisar, enfim, um guarda-trecos. Em 2004, fui para Maringá, deixei a turma do Estádio Municipal Cacá Scolari e levei o guarda-trecos junto. Voltei a Londrina em 2009. Morei de favor na casa da amiga Andrea Monclair, depois numa vilinha na Vila Ipiranga, até que comprei, financiada, uma casa no Monte Carlo, zona leste.

Numa tarde qualquer que pensei em cortar as unhas, do fundo do vidro as sementes de lichia olharam pra mim. Saquei algumas, as enterrei em saquinhos de café. Uma vingou. Trouxe a muda para Guará, na Alta Mogiana paulista, e, ato contínuo, a enterrei no sítio Recreio, que meus pais compraram no ano em que fui para Londrina cursar Jornalismo na UEL, 1984. Enterrei a muda num local em que supostamente haveria insolação necessária, entre a casa e um minúsculo cafezal, próximo a uma fruta-do-conde. Isso já faz uns sete ou oito anos.

Apesar dos meus esforços, constato, agora, setembro de 2019, que a muda evoluiu muito pouco. Tem no máximo 1,60 metro. O caule está retorcido, com uma casca esquisita, parece coisa de fungos. Fiz o que podia, desde o início. Enterrei bem, com esterco de galinha, no meio de um meio pneu de bicicleta – não sei por que as pessoas fazem isso, mas me pareceu a coisa certa. Toda vez que visitei Guará eu a reguei com generosos baldes d’água, como agora, neste agosto que custou terminar.

Não sei se a amoreira que cresceu ao norte, a pitanga a oeste e os mamoeiros que a rodearam nesses anos todos têm culpa no cartório, ou se sou eu mesmo o único culpado pelo mau cultivo. Ter sido neto de Paulo Fischer (que criou quatro irmãos e três filhos com sete alqueires de terra), conversado muito com Zé Ganchão e entrevistado Hebert Bartz de nada adiantou, até porque nunca abordei o assunto lichia com eles. Que mancada.

Quase um bonsai mas viva!

A Wikipédia afirma que, original das terras quentes da Ásia, a lichia adulta passa de 15 metros. A minha está lá, anã, quase um bonsai. Porém, viva. As regas de agosto surtiram efeito. Há novos ramos e folhas novas em toda a parte. Coloquei gravetos no pé da anãzinha para evitar que as galinhas cisquem perto dela, embora também creia que, a essa altura do campeonato, revolver a terra possa até ajudá-la. Pode ser que o agrotóxico dos sítios vizinhos a tenham prejudicado. Pode ser que esteja esperando a Valentina, minha sobrinha de um ano, alcançá-la na altura. Pode ser, simplesmente, que tenha, por si mesma, entrado num processo letárgico, à espera de novos ares, de um ambiente mais saudável, que mereça seus frutos. Nesse caso, melhor esperar ao menos até 2022. Tudo muda. Tudo pode mudar.

(*) Jornalista, palmeirense e exilado temporariamente em terras paulistas.

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