A arte de ser você mesmo

É engraçado como as pessoas se referem ao termo “arte”. Pela definição do dicionário, “arte” é a “atividade humana ligada a manifestações de ordem estética a partir de percepções, emoções, ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um dos espectadores e cada obra possui um significado único e diferente.”

“Arte” é um termo em latim que significa também técnica e ou habilidade, e geralmente está ligada a estética. Ou seja, quando alguém é muito bom na sua profissão, por exemplo, um mega confeiteiro, diz- se que ele “é um artista”. Não é estranho, então, que seja tão valorizado o termo “arte” e usado para grandes profissionais de outras áreas, mas quando se trata de artistas plásticos isso se torna um termo até ofensivo?

É estranho também que, nos dias de hoje, que profissionais tenham que ser “criativos”, é dado tão pouco espaço para a única profissão que desenvolve essa criatividade…Quando digo “única” estou falando da origem de tudo: desenho, pintura, escultura, gravura, processo de criação. Tudo o mais “bebe” dessa fonte, o design, a arquitetura, o criador de games, os HQs, enfim… Todos!

Por “estimular o interesse da consciência” podemos entender também que a arte ensina o ser humano a se conhecer, a saber quem ele é, a se colocar no tempo e no seu espaço, entendendo um pouco mais o mundo e como ele funciona, a extravasar sejam sentimentos bons ou ruins, a encontrar o equilíbrio e o foco.

Quando estudamos luz e sombra, de certa forma, não estamos falando só do externo, mas do interno, da filosofia ou filosofias, caímos no estudo das crenças humanas, da dualidade da vida, de como cada um enxerga sua vivência, carência, vida social, vida interna, vida e morte…

Outro item é o equilíbrio visual e o espaço, como cada um coloca muito de si mesmo nas composições (você organiza sua gaveta de meias como organiza sua mente), é tão simples que muita gente não acredita! O TOC de arrumação e de limpeza é um sinal que a pessoa está com sérios problemas de controle, limpar até a exaustão e deixar de viver é um sinal de que problemas mais sérios estão acontecendo, pois essa pessoa não está conseguindo organizar seu lado interno. O contrário é válido também: pessoas que são absolutamente desorganizadas ou acumuladores, são claros sinais de desordens afetivas, emocionais…

 Por isso existe a arte terapia, ou usam a arte para curar pessoas…O que parece muitas vezes um ótimo hobby não é nada mais que uma forma poderosa para se reconectar consigo mesmo.

Mas, que fique claro que não estou falando de aulas de arte que usam a “cópia”, aliás, pessoalmente abomino essa técnica. Ensinar arte requer do profissional que ele tenha noções dos matérias, da filosofia da arte, das técnicas, de meios de fazer “pontes” com as pessoas, de perspicácia, e sobretudo o artista professor tem que desenvolver seu próprio trabalho, ele não pode de maneira nenhuma submeter o aluno a mesmice e tirar dele a capacidade de criar!

E nem todo artista nasceu para ser professor, e nem todo professor pode dar aula de arte, isso é muito importante! Artistas professores de arte tem a capacidade inata de desenvolver as habilidades necessárias nos alunos, fazem com que elas apareçam e, daí sim, grandes artistas podem surgir. É uma falta de respeito colocar professores que não são artistas ou que não entendem profundamente do papel da arte para darem aulas, ainda mais quando se trata de crianças ou adolescentes!

Outra coisa absurda no nosso país é o vestibular da forma que acontece para o curso de artes… Em países desenvolvidos, quem quer prestar uma faculdade precisa mostrar suas obras, ter ao menos um início de produção e lá eles tem “tutores”, aprendem sobre arte, a falar do próprio trabalho com profundidade. Arte, fora daqui, é considerada de suma importância e é um dos mercados mais ricos do mundo!

Aqui as universidades se propõem a formar “professores” de artes para as escola que nem salas de arte tem. E não a direcionar esses alunos para o mercado das artes. Como disse antes, nem todo artista é professor!

Mudanças drásticas precisariam serem feitas para mudar o estado caótico que vive um artista por aqui.

Bom restinho de semana a todos!

Fotos: Acervo Pessoal

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

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